Vulgo Grace – Margaret Atwood

Não é um fato raro que autores decidam escrever seus livros baseados em algum acontecimento real. Nisso, há dois caminhos mais simples pelos quais o escritor pode optar por seguir: o primeiro é quando o fato é tão bom que pouca coisa na narrativa precisará ser inventada para preencher lacunas ou tornar aquilo mais interessante. Já o segundo caminho seria quando o fato narrado possui partes obscuras e o escritor buscará preenchê-las com possíveis respostas, através da ficção. O livro que estou resenhando, no entanto, é da exímia escritora Margaret Atwood, então é obvio que não dá para esperar que em Vulgo Grace ela fosse seguir algum dos caminhos simples.

Em 1846, Grace Marks era uma jovem de apenas dezesseis anos, quando foi acusada, juntamente com James McDermott, de assassinar Thomas Kinnear, o patrão de ambos, e Nancy Montgomery, governanta da casa e também amante de Kinnear. Grace e James são presos, porém, ao contrário do seu parceiro, Grace consegue escapar da forca. Quando o livro começa, já se passaram alguns anos que Grace está presa e existe uma comissão local lutando para provar sua inocência, já que uma grande parcela da população acredita que ela é inocente. Por isso, tal comissão acaba contratando o Dr. Simon Jordan, um médico especializado na mente humana.

Atwood escolheu narrar a maior parte do livro usando Grace como narradora, apesar de em vários momentos termos diante de nós outras vozes narrativas por meio de várias cartas que nos contam subtramas do livro. A escolha da autora é ousada, porém necessária, afinal a história de Grace sempre foi contada por terceiros e não por ela própria, ou seja, sabemos da história dessa mulher através da ótica de terceiros e da fama que ela tem, mas nunca por meio da boca dela. O próprio título escolhido por Atwood deixa claro isso, afinal, se pensarmos na palavra vulgo, cujo significado é alguém que é popularmente conhecido pelos outros, quer dizer também que boa parte daquilo que se sabe da personagem, tanto o seu lado ficcional quanto o lado real, é uma figura que foi interpretada por meio de uma ótica coletiva.

Não é raro me deparar com opiniões de muitos que leram o livro, onde as pessoas o consideram ou maior do que devia, ou com descrições muitas vezes longas e desnecessárias. Eu, ao contrário, acredito que serviram certinho ao propósito do livro, pois esta não é uma obra somente para retratar um crime cometido, e sim buscar respostas sobre quem é Grace Marks: uma fria e dissimulada assassina ou uma vítima? Dessa forma, é justamente para tentar chegar mais próxima de respostas que Atwood acaba indo à raiz da vida de Grace, narrando desde a vida dela com sua família na Irlanda, até a sua chegada no Canadá, onde ela sofreu constantes abusos psicológicos por parte tanto do pai quanto de alguns patrões, dando uma clara visão das condições de vida das mulheres no século dezenove no Canadá.

É interessante o leitor ficar atento às cartas escritas por outros personagens, para que haja uma compreensão acerca do clima que toma conta da cidade, e que, por conseguinte, envolve os seus personagens, em especial no complexo emaranhado de relações no qual o Dr. Jordan está se envolvendo, não só as relativas ao caso de Grace, mas com problemas, seja com jovens apaixonadas por ele, membros da sociedade que querem desfrutar da sua companhia, ou até mesmo com a senhoria da pensão onde ele vive na cidade.

Como a própria Margaret Atwood ressaltou várias vezes, o que ela escreve é ficção especulativa, então é claro que não dá para esperar nesse livro respostas definitivas para quem foi Grace. Na verdade, como astuta que é, Atwood percebeu logo de cara que criar uma resposta para tal questão acabaria simplesmente tirando todo o charme da história em si, afinal qual é a graça de um mistério quando totalmente explicado? Isso esgotaria todo o charme da história de Grace, assim como seria uma facilitação ao leitor que busca apenas respostas, ao invés de buscar pensar sobre o caso em si. Porém, a falta de respostas não altera em nada o valor do livro, pois com uma escrita firme e capaz de evocar os mínimos detalhes, Atwood consegue criar uma obra realmente muito boa, que consegue prender o leitor da primeira à última página, sendo tão fascinante a personagem central quanto a escrita de Atwood.

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Cadê você, Bernadette? – Maria Semple

Não é raro eu pegar algum livro mais simples para ler, como livros que, em geral, são extremamente fluidos e divertidos, e com enredos mirabolantes e pouco críveis.   Para mim, o lado bom deste tipo de livro é o fato de que posso abri-lo e ser levado por várias e várias páginas sem ter que pensar muito, só lendo e me divertindo. Isso não quer dizer que, por esses romances serem caracterizados como de entretenimento, não são obras das quais não se dá para debater ou discutir. Para isso, o ponto mais importante que temos que levar em conta é que estaremos analisando um livro comercial, e não algum romance inovador em técnicas e conteúdo.

Em Cadê você, Bernadette? de Maria Semple, tomamos conhecimento de uma enxurrada de acontecimentos tragicômicos, que levaram ao desaparecimento de Bernadette Fox. A própria Bernadette é o enigma em pessoa: para seu marido, um importante empresário da Microsoft, e sua filha Bee, ela é uma pessoa incrível; Para as outras mães da escola Galer Street, Bernadette é uma pária inconveniente; e para especialista em arquitetura ela é um gênio pioneiro na arquitetura sustentável. Ela não gosta de sair de sua casa, e nas poucas vezes que sai é com sua filha e uma amiga de sua filha, ou com seu marido, já que ela nutre uma relação de profundo ódio com Seattle, a cidade onde vive.  Então, quando Bee aparece com seu boletim perfeito e cobra as férias na Antártida onde os pais prometeram levá-la caso ela tivesse as melhoras notas, acaba surgindo um grande problema para Bernadette que, junto com uma outra sucessão de acontecimentos, causa seu desaparecimento.

Uma das cosias que mais gostei em Cadê você, Bernadette? é o fato de ali estar presente vários temas contemporâneos como tecnologia, arquitetura sustentável, associações de mães que vivem como abelhas de uma colmeia, sempre trabalhando em conjunto em prol de uma suposta manutenção para uma sociedade melhor, as novas escolas que buscam um perfil mais liberal de educação e menos tradicional, o uso de drogas por jovens, estresse pós traumático, etc. Essa longa lista de temas que nos são apresentados no romance, dos quais nenhum Maria Semple procura tratar com uma especialista, acaba fazendo com que o livro reflita o seu tempo.

Outro ponto importante é o humor que a narrativa em si, pois tudo tem um forte tom humorístico. Entretanto, este tom não é criado através de piadas, e sim de situações totalmente fora do comum ou inusitadas, ou seja, a autora não fica forçando a barra contanto piadinhas a todo instante, uma vez que ela cria a cena e deixa a cargo do leitor qual será a reação dele diante daquilo.

A forma como as coisas são narradas é extremante interessante, pois no começo toda a história é contada através de vários documentos compilados por Bee, que vão desde e-mails, artigos de revista, faturas de seguro médico e dentre vários outros. Isso, por sua vez, acaba criando várias vozes narrativas, sempre dando para o leitor uma noção melhor daquilo que aconteceu, já que em alguns momentos aquilo que um personagem narra pode ser algo parcial, que será complementado com a versão de um outro personagem por aquele mesmo acontecimento.

Por fim, eu gostaria de deixar claro o quanto eu gostei da leitura desse livro, pois desde a sua primeira página eu não consegui deixá-lo de lado um único instante, e passava horas lendo ele sem me entediar em momento algum. Isso se deve ao fato de que, além do livro ser extremamente engraçado e divertido, ele também é inteligente. É claro que há ali uma gama muito grande de situações que não tem a mínima verossimilhança, mas é sempre interessante o leitor se lembrar de que o que tem em mãos quando for ler Cadê você, Bernadette? é apenas um romance cuja intenção é bem mais entreter do que ganhar algum grande prêmio literário.

Esperando Bojangles – Olivier Bourdeaut

Em Esperando Bojangles existe um grande jogo de luz e sombras, o que é algo interessante, pois esse não é de forma alguma aquilo que eu definiria como um livro que possui uma atmosfera sombria. Porém, vou chamar de sombra, nesta resenha, aquilo que o narrador consegue lançar pouca luz, ou seja, aquilo que ele não consegue compreender bem, e de luz aquilo que ele consegue compreender. É claro que entre luz e sombras há a penumbra, que dentro deste livro equivaleria ao despertar da percepção do narrador sobre aquilo que ele narra. Essa pequena introdução se deve ao fato de o livro ser narrado por uma criança, e como eu sempre afirmo, aquilo que é narrado por uma criança está sujeito a ser uma narrativa que experimentara a percepção do narrador.

Narrado pelo filho de um casal de franceses, Esperando Bojangles tem um tom claramente hedonista, onde esse casal todo dia dá festas e recepções na sua casa, recebendo convidados famosos ou influentes. Entretanto, esse tipo de comportamento alegre e festivo não se dá somente durantes as festas, uma vez que o marido chama a esposa todo dia de um nome diferente, a esposa bebe bebidas alcoólicas a qualquer hora do dia, ambos nunca abrem as cartas endereçadas a eles, e nem se preocupam que o filho frequente a escola. Além de tudo isso, em plena Paris possuem, dentro do seu apartamento, um grus virgo que eles chama de Madame Supérflua, tudo isso ao som da música tema do casal: Mr. Bojangles, de Nina Simone. Desse modo, a narrativa, como já mencionado anteriormente, se dá através dos olhos do filho do casal, apesar de que, em alguns momentos, o enfoque muda e quem conta a estória é George, o marido.

Confesso que nas primeiras páginas eu já lia o livro com um olhar cético e esperando onde seria o fim de toda essa distensão, pois por mais que as loucuras que aconteciam na trama fossem ficcionais, chegaria uma hora que teria de acontecer alguma consequência delas para que o livro pudesse seguir com um mínimo de coerência. E isso veio com uma exatidão incrível, já que o autor soube como fazer surgir uma tensão no momento exato da narrativa (caso você esteja se perguntando qual seria o momento onde o hedonismo dá espaço à tensão, posso dizer que tal fato ocorre quando o narrador descobre que sua mãe tem que ser internada em uma clínica psiquiátrica, visto que ela é taxada como louca e pode deixar seu marido e filho em riscos de maior ou menor grau, fato que abala fortemente o pai e o filho).

Apesar disso, George acaba se lembrando da promessa que fez à sua esposa quando ambos se conheceram: de que onde ela estivesse lá ele também estaria. Assim, decidido a dar um jeito de tirar sua mulher da clínica psiquiátrica, novamente George, a mulher e o filho do casal voltam ao seu antigo estilo de vida, totalmente sem limites e cheio de aventuras e peripécias. No entanto, já fica claro para o leitor que essa será a última grande aventura da família, justamente pelo tom da narrativa e por questões lógicas, já que limites são parte importante de uma vida saudável.

Um outro ponto que Olivier Bourdeaut consegue explorar de forma muito inteligente nesse livro é a questão da loucura da mãe, pois em nenhum momento é mencionado exatamente qual é o transtorno ou doença mental dela (o que acarretaria, para o autor, no trabalho de ter que escrever sobre os padrões dessa doença ou transtorno, ou também na possiblidade de rechear seu livro de informações desnecessárias e maçantes sobre doenças mentais). Não obstante, o autor não banaliza o tema, já que ele consegue criar um histórico da doença de forma convincente e, sobretudo, consistente, tratando o tema de forma leve, bem humorada e inteligente.

Não me admira nem um pouco o fato de que o livro se tornou um best-seller na França e já tem seus direitos de publicação vendidos a vinte e nove países, pois a forma como Esperando Bojangles aborda a loucura e como a obra modela o modo de uma família de lidar com o mudo está além de um livro hedonista. Olivier Bourdeaut cria um ambiente delicado e bonito, permeado por uma leve melancolia para tratar de uma família feliz que, ao contrário daquilo que Tosltói afirma em Ana Karênina (“Todas as famílias felizes se parecem entre si; e as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”). Esperando Bojangles, em suas 128 páginas, se trata de uma família que foi feliz à sua maneira e que, com toda certeza, cabe ao leitor conhecer essa encantadora e linda estória.

O pescoço da girafa – Judith Schalansky

O pescoço da girafa, da escritora alemã Judith Schalansky, era um livro que tinha tudo para ser interessante. Com uma bela capa, um título interessante e uma boa trama, tudo indicava que poderia render um belo livro, mas ao lê-lo pude perceber que é justamente o contrário: ele é um livro enfadonho e não cumpre quase nada do enorme potencial que parece ter.

Ao longo de 224 páginas somos apresentados a Inge Lohmark, uma professora de biologia que mora em uma cidade que pertencia à antiga Alemanha Oriental. O colégio Charles Darwin, onde Inge e seus amigos dão aulas, está preste a ser fechado. Ademais, as pessoas estão se mudando para outros lugares mais modernos, com maiores chances de emprego e qualidade de vida. Eis que, nesse contexto, surge para Inge a importante necessidade de se adaptar para que não fique para trás com o avanço do processo evolutivo.

Inge não é uma pessoa que poderia ser chamada de legal, uma vez que ela é sempre muito dura e crítica em relação aos seus alunos e colegas de trabalho e quase nunca demonstra sentimentos positivos em relação a eles. No geral, os únicos sentimentos que o leitor sabe que ela têm em relação aos seus colegas e alunos é o menosprezo. Na verdade, a capacidade de convívio e interação social de Inge com outros seres humanos é algo lamentável, pois simplesmente não existe: ela é fria, monótona e muito racional, tão racional que acaba sempre pendendo para o lado do pessimismo em relação a tudo que a cerca.

A partir da descrição anterior o leitor pode pensar: “Nossa, mas então ela vive completamente sozinha e sem contato humano algum?” E a resposta será: não. Ela é casada e tem uma filha crescida que se mudou para os Estados Unidos. Já o marido de Inge é quase inexistente na narrativa e ele somente é citado quando surge algum comentário sobre a criação de avestruzes que tem.

O pescoço da girafa só é realmente interessante na linguagem que apresenta, sendo válido ressaltar a forma como Judith Schalansky narra sobre Inge, que é uma professora de biologia, e insere no livro vários temas que são intrínsecos à área de estudo da protagonista, como reprodução, evolução, adaptação, maternidade, puberdade e extinção. Porém, todos esses temas são tratados de forma contextualizada no livro, ou seja, nada ali surge de forma gratuita. Pelo contrário: muitas vezes surgem como nuances, mas infelizmente isso não salva o livro de ser algo maçante, deixando claro que Judith Schalansky tem potencial para escrever algo melhor.

“Mais de noventa e nove por cento de todas as espécies que existiam na Terra naquela época foram extintas. Mas todos pensavam apenas naqueles grandes e ridículos animais de quarenta toneladas e cérebro do tamanho de uma bola de tênis, que não eram capazes de regular sua temperatura corporal. ”

A câmara sangrenta e outras histórias – Angela Carter

Os dez contos apresentados por Angela Carter em A câmara sangrenta e outras histórias podem ser vistos como releituras feministas dos contos de fadas tradicionais. Os principais objetivos da autora são explorar e dar maior destaque à participação das mulheres nos já clássicos contos de fadas, tirando elas dos papéis de donzelas indefesas e frágeis que precisam ser salvas, repondo-as no centro das narrativas, onde exercem papéis decisivos nos desfechos das mesmas.

No primeiro conto, que dá título ao livro e é baseado na fábula do Barba Azul, um marquês da França acaba de se casar com sua quarta esposa, após a morte das outras três, e a trama gira em torno de um cômodo que não deve ser aberto. Em O Sr. Lyon faz a corte, que é claramente inspirado em a Bela e a fera, uma jovem é obrigada a jantar com a Fera, após seu pai roubar uma flor do jardim da criatura. Desse modo, assim como no conto A noiva do tigre, não é possível saber quem exatamente é capaz de afetar mais o outro, se são as feras ou as jovens donzelas, graças a complexos jogos de sedução.

Já em O gato de botas, temos uma das narrativas mais leves do livro, onde um gato ajuda seu amo a conquistar e a ficar junto à jovem amada. O rei dos elfos, por sua vez, traz a interessante história de amor entre uma mulher e o Rei do elfos, até ela perceber o quanto pode correr perigo se não souber usar sua sedução para favorecê-la.  Em A filha da neve, nos é contada uma interessante disputa por parte da condessa para que ela não perca a atenção do seu amado conde para a jovem filha que ele tanto desejou. Já em A senhora da casa do amor, o narrador conta a história de uma espécie de filha do Drácula, que vive com uma ama que é muda e que, graças a um estranho misterioso, conhecerá o amor.

Por fim, nos contos O lobisomem, A companhia dos Lobos e A loba Alice, trazem as histórias que são permeadas com a temática: lobos ou lobisomem. Em O Lobisomem, temos o encontro de uma jovem menina com um lobisomem e a revelação sobre a identidade dele. Também, A companhia dos lobos conta uma releitura de chapeuzinho vermelho, onde a menina consegue domar o lobo graças a seus encantos femininos. Já no último conto, nos é apresentada a história de Alice, uma menina que desde pequena viveu com os lobos, mas é resgatada e o narrador mostra parte das suas descobertas na sua nova vida com seres humanos.

Uma das grandes questões que o livro levanta é o possível feminismo presente nele, e muita gente não concorda tanto com o fato de conter, nas histórias, nudez e sexualidade, além da capacidade de sedução feminina, que podem ser usadas como armas. Para mim é aí que entra a parte interessante do livro, pois é preciso que nos esforcemos para contextualizar os contos na época em que as histórias se passam, uma vez que a sedução, o corpo e a sexualidade feminina são os poucos artífices que as mulheres dispõem. Ok, isso não é a coisa mais digna para se fazer com seu corpo, mas é isso que permite, dentro dos contos, o poder de decisão das personagens sobre seus futuros.  Elas não estão ali simplesmente à espera do príncipe que as salvará, e nem mesmo do amor, pois quando esse aparece, as mulheres escolhem se vão se render a ele. Para mim, isso pode não ser feminismo, mas o mínimo que posso chamar tal fato é de que é justo, já que a pessoa tem o direito sobre o que fazer da própria vida acima das convenções sociais.

Os contos de Angela Carter são escritos de forma firme e descritiva, sendo todos bem desenvolvidos. A autora é mais descritiva para levar a cabo dentro do conto aquilo que é sua intenção mostrar, afetando um pouco o livro como um todo, pois se perde muito da agilidade e exige uma dose maior de concentração por parte do leitor, mas nada que cause grandes prejuízos à obra. Em minha concepção, valeu muito a pena conhecer a escrita da autora e ficou o interesse em ler mais de seus trabalhos.

O ruído das coisas ao cair – Juan Gabriel Vásquez

Eu costumo definir como um romance policial elegante, aquele livro que possui os mesmos traços básicos de um romance policial (um assassinato, um mistério e alguém que busca desvendar o mistério), porém não é tão recheado de ação, sangue ou violência quanto um livro policial “normal”. E é nesta classificação de romance policial elegante que eu inseri O ruído das coisas ao cair do escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez.

Basicamente a trama é a seguinte: no meio da década de noventa Antonio Yammara, um professor universitário, acaba conhecendo, no salão de bilhar que frequenta, o ex presidiário Ricardo Laverde, e ambos logo ficam amigos. Um dia, porém, Ricardo é assassinado, e Antonio que por acaso estava com ele acaba levando um tiro e fica em estado grave. Após se recuperar ele fica com um tipo de estresse pós-traumático, que acaba afetando a sua vida em família. Até que um certo dia ele decide voltar à casa onde Ricardo Laverde morou, para   tentar descobrir mais sobre seu misterioso amigo, e sobre o que realmente aconteceu quando ele foi morto.

Como pano de fundo temos a Colômbia a partir dos anos setenta dominada pelo narcotráfico e por Plabo Escobar, que apesar de não ser uma figura central, ou do qual o narrador   se debruça diretamente em algum momento, está lá. Afinal como não falar sobre os anos setenta e o narcotráfico na Colômbia sem mencionar um dos traficantes mais famosos da história, e que consequentemente se tornou uma espécie de ícone.  E é claro o narrador vai mencionar em vários momentos, como esses anos foram um período de insegurança, e que por isso mesmo acabou por criar uma geração que ou era cheia de medo, ou acabam buscando ir embora do seu país natal.

É com está geração ao fundo que Antonio, acabará descobrindo mais sobre a vida e a família de Ricardo Laverde, e sobretudo esclarecer quem realmente foi este homem e qual a sua história. Para isso Antonio terá que entender antes, parte da história do pai e também do avô de Ricardo. Porém não só Antonio, ou Ricardo, mas todos os personagens parecem estar de alguma forma profundamente distanciados do leitor.

Apesar de derrapar de forma perigosa em alguns clichês de livros policiais (o fato de que o homem que está investigando algo acabar indo para a cama com uma mulher que está ligada a vítima, que é um clichê enorme de livros policias), e de toda a trama, parecer ser recoberta com um tipo de verniz; elegante, mas também fria. A escrita de Juan Gabriel Vásquez consegue ser ao mesmo tempo: rica, elegante e segura, conseguindo assim, narrar sobre qualquer fato de forma precisa e fluida, sem cometer excessos.

Como um todo eu gostei muito do livro é um romance muito bem construído e narrado; capaz de manter minha atenção como leitor por várias páginas. O que é raro em livros descritivos. Ao mesmo tempo ajuda a lançar luzes sobre a Colômbia durante o auge do narcotráfico. Mas não somente isso, o livro é também uma ode às pessoas que passam por nossa vida e marca de forma inesquecível, para o bem ou para o mal.

Por último o livro me fez pensar em o quanto cada pessoa tende a ser fruto da sua geração, se ela não tomar cuidado. O que é um pouco frustrante saber que não importa o quanto você esteja engajado ou de acordo com seu tempo, mesmo sem que você possa escolher, de alguma forma resquícios dele vão se infiltrar pela sua vida e possivelmente influenciá-la em maior ou menor grau.

“Colômbia produz fugitivos, isso é verdade, mas um dia eu gostaria de saber quantos deles nasceram como eu e como Maya no início da década de setenta, quantos, como Maya e eu, tiveram a infância pacífica, protegida, ou pelo menos não perturbada, quantos atravessaram a adolescência e se tornaram temerosamente adultos, enquanto ao seu redor  a cidade mergulhada no medo, nos ruídos de tiros, nas bombas, sem que ninguém tivesse declarado guerra alguma, pelo menos não uma guerra convencional, se é que existe semelhante coisa. Gostaria, assim, de saber quantos saíram de minha cidade sentindo que se salvavam de uma ou de outra maneira(…)”

Berenice procura – Luiz Alfredo Garcia-Roza

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Quando eu decidi ler Berenice procura, já imaginava que não seria um livro policial do estilo convencional; onde acontece muita ação e um final surpreendente. Afinal este não é o estilo do escritor carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza, que apesar de escrever ótimos livros não é um escritor que dá todas as respostas ou desfecho de forma lógica e normal, mas mesmo assim eu decidi ler, e quando cheguei ao final à única coisa que eu pensei foi “hum, agora qual o próximo livro que vou ler”.

O filho de um diplomata brinca na areia com sua pá de plástico e repentinamente descobre enterrado o corpo de um travesti. Próximo ao local onde o corpo foi descoberto é o ponto de táxi onde trabalha Berenice, uma mulher de 34 anos divorciada, e que sustenta a casa onde mora junto com sua mãe e seu filho.  Ela é ex-mulher de Domingos um jornalista policial que faz trabalhos temporários, e que inconvenientemente tenta sempre se reaproximar de Berenice.

Outro personagem   no livro é Russo, um morador de rua que cresceu próximo ao local onde é descoberto o corpo de Valéria (o travesti, assassinado), e que sem querer acabou testemunhando o assassinato. Russo é conhecido entre os outros moradores de rua e travestis por sua aparência de cabelos ruivos e seu estilo que lembra muito mais um turista estrangeiro do que um morador de rua.

Entre uma corrida de táxi e outra Berenice tenta descobrir mais informações sobre o que realmente aconteceu com Valéria (e posteriormente uma criança de rua que também testemunhou o assassinato de Valéria, e assim como o travesti também morreu de forma bem suspeita.). E com a desculpa de passar informações sobre o crime, Domingos acaba se reaproximando da ex-mulher novamente. Posteriormente os caminhos de Russo e Berenice acabam se cruzando (como é inevitável).

O que deixou muita gente insatisfeita após ter lido Berenice procura, foi o seu final inconclusivo, e é engraçado, pois para mim isso surpreendeu bem mais do que irritou, e isso que é o mais interessante; a vida não te dá todas as respostas de forma exata e clara, porque então a literatura deveria dar? E confesso também que o fato de leitores de livros policiais não saberem formular teorias ou suposições é muito engraçado. Mas o final não salva Berenice procura de ser um romance ruim.

Por último eu gostaria de ressaltar o que me fez ler o livro, mesmo tendo uma clara noção de que este não seria um livro do qual eu gostaria. O que me fez abrir este livro para ler foi o seu autor Luiz Alfredo Garcia-Roza, que com seu personagem inspetor Espinosa, já demonstrou ser capaz de escrever grandes obras do gênero policial. Neste livro inclusive o leitor pode se deparar com detalhes originais e até mesmo bem escrito, mas o problema está aí, somente os detalhes são bem escritos, o livro como um todo não empolga, nem distrai.