Berenice procura – Luiz Alfredo Garcia-Roza

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Quando eu decidi ler Berenice procura, já imaginava que não seria um livro policial do estilo convencional; onde acontece muita ação e um final surpreendente. Afinal este não é o estilo do escritor carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza, que apesar de escrever ótimos livros não é um escritor que dá todas as respostas ou desfecho de forma lógica e normal, mas mesmo assim eu decidi ler, e quando cheguei ao final à única coisa que eu pensei foi “hum, agora qual o próximo livro que vou ler”.

O filho de um diplomata brinca na areia com sua pá de plástico e repentinamente descobre enterrado o corpo de um travesti. Próximo ao local onde o corpo foi descoberto é o ponto de táxi onde trabalha Berenice, uma mulher de 34 anos divorciada, e que sustenta a casa onde mora junto com sua mãe e seu filho.  Ela é ex-mulher de Domingos um jornalista policial que faz trabalhos temporários, e que inconvenientemente tenta sempre se reaproximar de Berenice.

Outro personagem   no livro é Russo, um morador de rua que cresceu próximo ao local onde é descoberto o corpo de Valéria (o travesti, assassinado), e que sem querer acabou testemunhando o assassinato. Russo é conhecido entre os outros moradores de rua e travestis por sua aparência de cabelos ruivos e seu estilo que lembra muito mais um turista estrangeiro do que um morador de rua.

Entre uma corrida de táxi e outra Berenice tenta descobrir mais informações sobre o que realmente aconteceu com Valéria (e posteriormente uma criança de rua que também testemunhou o assassinato de Valéria, e assim como o travesti também morreu de forma bem suspeita.). E com a desculpa de passar informações sobre o crime, Domingos acaba se reaproximando da ex-mulher novamente. Posteriormente os caminhos de Russo e Berenice acabam se cruzando (como é inevitável).

O que deixou muita gente insatisfeita após ter lido Berenice procura, foi o seu final inconclusivo, e é engraçado, pois para mim isso surpreendeu bem mais do que irritou, e isso que é o mais interessante; a vida não te dá todas as respostas de forma exata e clara, porque então a literatura deveria dar? E confesso também que o fato de leitores de livros policiais não saberem formular teorias ou suposições é muito engraçado. Mas o final não salva Berenice procura de ser um romance ruim.

Por último eu gostaria de ressaltar o que me fez ler o livro, mesmo tendo uma clara noção de que este não seria um livro do qual eu gostaria. O que me fez abrir este livro para ler foi o seu autor Luiz Alfredo Garcia-Roza, que com seu personagem inspetor Espinosa, já demonstrou ser capaz de escrever grandes obras do gênero policial. Neste livro inclusive o leitor pode se deparar com detalhes originais e até mesmo bem escrito, mas o problema está aí, somente os detalhes são bem escritos, o livro como um todo não empolga, nem distrai.

A Máquina de fazer espanhóis – Valter Hugo Mãe

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Eu poderia afirmar que a decisão do autor de escrever um livro sem usar letras maiúsculas foi um fator que durante a leitura me cansou muito e por isso não gostei do livro tanto quanto devia. Poderia, mas não direi isso, este é um daqueles casos de livro em que abri, e fui lendo de forma arrastada até chegar ao fim, e quando o fechei, soube que não gostei.  Isso não quer dizer que eu não tenha entendido o livro ou estivesse no momento errado para lê-lo, quer dizer simplesmente que eu abri um livro li, e ele não me surpreendeu, divertiu ou me interessou tanto a ponto de eu acreditar que este seja um bom livro.

Em A máquina de fazer espanhóis somos apresentados ao senhor Silva, com 84 anos, e 48 anos de casado, ele repentinamente fica viúvo, e como era de se esperar ele sofre muito com a perda, afinal ele sempre desejou morrer junto com sua mulher, ou ao menos que ele morresse antes dela. Os filhos dele então decidem por interná-lo em um asilo para idosos. Lá o senhor Silva passa a ignorar e evita interagir com os outros hóspedes, e ainda se mantém amargo e melancólico, fazendo observações cáusticas sobre o envelhecimento.

De todos os internos do asilo o mais famoso é o Esteves, que além de ter quase cem anos, os outros internos afirmam que ele é o homem sem metafísica que aparece no poema Tabacaria de Fernando Pessoa. É depois de conhecer o Esteves é que aos poucos o senhor Silva passa a interagir com os outros internos e criar algumas amizades e de certa forma redescobrir a graça de viver.

Das coisas que me irritaram e fizeram a leitura de A máquina de fazer espanhóis ser um livro que eu não gostei: a primeira foi o fato do autor usar uma pontuação toda própria, em especial tirar as maiúsculas, tornou visualmente cansativo a leitura. Segundo, a necessidade do autor de em vários momentos se desviar da trama no presente para narrar sobre política e história de Portugal (não me interesso muito por política, história e guerra dentro de literatura).  E por último o tom que Valter Hugo Mãe usa, muitas vezes um tom que mais parece de quem está interessado em passar ensinamentos, do que em quem está interessado em escrever ficção, apesar de ser inegável que quando ele quer escrever cenas de ficção elas podem ser muito interessantes.

A máquina de fazer espanhóis é um daqueles livros de que a maioria das pessoas que conheço leu e gostou, mas comigo não aconteceu isso, eu li achei um livro mediano em alguns momentos e em outros achei um livro chato e cansativo. Espero fazer as pazes com o autor, já que ainda tenho alguns livros dele aqui para ler.

 

As avós – Doris Lessing

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Uma coisa que eu nunca tinha pensando até então era no quanto criamos, e mantemos, amizades para que elas sejam um tipo de confirmação das nossas crenças, valores e ideias. Com isso eu não quero dizer que buscamos em nossos amigos ou em quem nos relacionamos um clone nosso, ao contrário, a pessoa pode ser um completo oposto de nós mesmos, mas nos tornamos amigos por algum detalhe em comum, seja ele pequeno ou grande, consciente ou inconsciente. E da mesma forma que buscamos no outro um tipo de confirmação nossa, escolhemos nos autoenganar quando alguém que conhecemos ou nos relacionamos decide não nos dar esta confirmação. É só lembrar o seguinte: quantas pessoas você já deixou de conversar, ou se afastou, seja por um pequeno tempo ou por um tempo grande, por ela ter lhe dito algo que te contrariou ou que você buscava negar e mais para a frente aquilo que ela afirmava se mostrou correto?

No livro As avós, o leitor é apresentado a dupla de amigas Roz e Lil, ambas são amigas desde a infância e cresceram juntas na bacia de Baxter, uma pequena cidade cercada por rochas. Roz e Lil são vizinhas, ambas cresceram a se tornaram mulheres exuberantes, ao mesmo tempo ambas se casaram e tiveram seus filhos (Tom filho de Roz e Ian, filho de Lil), e posteriormente ficaram; Roz solteira e Lil viúva. Roz se tornou professora de teatro da escola da cidade, e Lil, que antes era uma grande atleta, acabou se tornando dona de uma pequena cadeia de loja de materiais esportivos. Juntas elas sempre tiveram uma amizade simbiótica e a relação acaba se estreitando mais ainda quando cada uma passa a se tornar amante do filho da outra.

O quarteto passa a viver um inusitado caso de amor, que ao mesmo tempo em que traz muito prazer a todos os envolvidos acaba por criar uma preocupação para Roz e Lil, já que ambas temem chamar a atenção do resto da população local para a situação que pode ser considerada no mínimo um tabu. Em especial pelo fato de como é que duas mulheres tão atraentes e exuberantes podem ainda estarem solteiras e sem nenhum pretendente. E logo elas acabam dando um jeito de se distanciarem de Tom e Ian, que acabam por conhecer e casar respectivamente com Mary e Hannah. Apesar de a grande paixão dos dois homens serem Roz e Lil.

Aquilo que de cara me chama atenção é que esta trama é vista por muitos como um enredo polêmico, mas na verdade o que existe de polêmico ali? Estamos falando de duas mulheres de meia idade que   sempre foram muito próximas uma da outra, e uma acaba se envolvendo com o filho da outra. Fora isso, o único fato polêmico é que tudo ali está em um microcosmo muito íntimo e fechado para estranhos.  E aqui eu me lembro de um momento em que Harold, o marido de Roz, acaba confrontando – a ; que o casamento dela sempre foi com Lil, e que na relação de ambas não tinham espaço para seus maridos. E aí voltamos par aquilo que eu disse no primeiro parágrafo desta resenha, Roz prefere se autoenganar de que vive neste microcosmo, fechado a estranhos, com Lil.

Outro detalhe muito interessante é a vida em dupla digamos assim, no livro, cada um dos personagens forma uma dupla com outro em seu modo de agir, Hannah e Mary criam uma aliança e se apoiam mutuamente quando decidem trabalhar fora, Roz e Lil quando decidem começar e depois dar um fim na história de amor, Tom e Ian quando decidem aceitar que não podem viver este caso eternamente, e Harold e Theo que mesmo amando suas mulheres percebem o quanto há de errado, ou só fora dos padrões.  E isso me fascina muito o quanto buscamos no outro um reflexo mesmo que minúsculo daquilo que desejamos ou acreditamos, e isso mostra como muitas vezes nossas convicções são fracas ou inseguras e necessitamos de um apoio, seja ele para realizar um sonho ou alguma coisa que não é muito normal de se fazer.

As avós é uma novela encantadora sobre os limites daquilo que é natural e daquilo que não é natural, é também um livro que te faz dar uma remexida na cadeira durante a leitura, e após ler você fica pensando em o quanto aquilo ali é algo moral ou amoral, para seus padrões, mas sobretudo é a história de um amor que desafia padrões ou regras. As 97 páginas do livro formam um livro delicioso, bem-humorado e completamente inusitado, criando assim, um livro encantador e delicioso.

Stoner – John Williams

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Chega a ser engraçado o fato de Stoner ser um livro cultuado por tanta gente, pois quando eu penso na trama do livro, a primeira palavra que me surge na mente para descrevê-lo: é comum. Não há nada ali que não possa acontecer na minha vida ou na vida de alguém próximo que eu conheço, e talvez seja isso a primeira coisa que me impressione quando fechei o livro após ter lido as suas 320 páginas. Afinal estou acostumado à arte, e na maioria das vezes lermos histórias pouco convencionais e criativas, mas cuja principal característica é me fazer pensar: “Não acontece isso tantas vezes na vida real. “

Aos dezenove anos William Stoner ingressa na faculdade, e isso é bastante incomum, para ele, por ele ser filho de camponeses que nunca estudaram. Ele começa a estudar literatura, após se formar ele arruma um emprego como professor na faculdade e ao mesmo tempo passa a seguir a carreira acadêmica. Ao longo dos anos Stoner se casa, passa a ser infeliz no casamento, tem uma filha, também tem um caso, e vai subindo lentamente alguns degraus mínimos da hierarquia na faculdade onde trabalha. Assim como qualquer pessoa normal a vida de Stoner também oscila entre alguns revezes e outros momentos de profunda felicidade e paz.

Talvez a característica que mais chama a atenção dos leitores de Stoner é o estoicismo e passividade do personagem, as suas atitudes muitas vezes me lembrou alguém que está sob uma forte chuva e ao invés de tentar seguir adiante se curva ao máximo para tentar evitar ser muito castigado, mas não reage, não com um mínimo de ímpeto ou força de vontade. O mais estranho para mim, é o quanto eu passei a gostar do personagem Stoner e torcer por ele, não que eu tenha algo contra, mas nunca fui do tipo que torcesse ou admirasse personagens passivos ou delicados, ao contrário sempre gostei muito mais de personagens fortes, pragmáticos e que não se curvam.

Uma das questões narrativas que me impressionou muito é que Stoner é um livro cuja narrativa começa com uma qualidade bem acima da média e simplesmente segue neste patamar sem sofrer oscilações em sua qualidade narrativa, se o livro não tem pontos altos que se destaquem em especial, tão pouco cai em momentos de chatice ou que se transforme em momentos cansativos ou desnecessários.  Esta observação não diz algo somente sobre mim, mas também sobre quem escreveu este livro, pois não é tão comum assim um livro ter tamanha uniformidade em sua escrita, sem que seja um livro mediano. Ao pensar sobre isso fica claro para mim, o quanto John Williams estava no pleno controle de cada linha daquilo que escrevia.

Para muitos leitores o grande trunfo de John Williams é de que ao retratar a vida absolutamente comum de Stoner, a história encanta as pessoas pela capacidade de se verem ali, ou não longe daquela vida que é de todo comum.  E isso é muito engraçado, pois para mim, o que eu gostei em Stoner não é a capacidade de espelho que a narrativa poderia exercer sobre minha vida, mas sim o fato de que Stoner lembra-me muito um vidro de janela no qual chegamos muito próximos para tentar ver através dele. E assim como acontece com o vidro, em Stoner há quem se perca contemplando seu próprio reflexo, ao invés de ver através deste vidro. Para mim a grande recompensa de ler Stoner está no fato de eu precisar abrir um livro e começar a olhar para ele, para só então conseguir ver através deste livro o fato de que, da vida mais comum pode- se surgir uma grande obra de arte. Para mim, ao escrever Stoner John Williams executando uma grande ode a vida comum.

Kitchen – Banana Yoshimoto

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Em 1988 Banana Yoshimoto (o nome verdadeiro dela é Mahoko Yoshimoto, mas ela acabou por adotar o pseudônimo Banana, por achar de grande beleza as flores de bananeiras) lançava no Japão Kitchen, seu primeiro livro.  E foi este livro que abriu uma consagrada carreira de escritora, hoje podendo ser considerada, ao lado de Haruki Murakami, uma das figuras mais representativas da atual literatura japonesa.

Kitchen é composto: por uma novela homônima; a qual é dividida em duas partes: Kitchen e a segunda Lua Cheia (Kitchen 2), e pelo conto Moonlight Shadow. Na primeira parte da novela Kitchen, o leitor é apresentado a jovem Mikage, que é órfã de pais, e passou a morar com os avós. (No momento em que começa o livro ela acabou de perder a sua avó, mas logo após o enterro ela é convidada pelo jovem Yuchi Tanabe para morar com ele e sua mãe Eriko, que na verdade é o pai dele, que mudou de sexo, logo após a morte da mãe de Yuchi). Logo os Tanabe passam a ser uma nova família para Mikage, cuidando dela, e ela cuidando deles, formando uma linda relação, e é também com eles que ela consegue alcançar um amadurecimento maior, no qual, posteriormente irá impulsioná-la a voltar a conquistar sua independência.

Já em Lua Cheia (Kitchen 2) Mikage já mora sozinha e trabalha como assistente de uma importante cozinheira (lembrando que a relação especial com que a personagem tem na cozinha é tema logo do parágrafo de abertura do livro), passou um tempo sem que ela veja mais com tanta frequência Eriko e Yuchi, apesar de se gostarem muito, Mikage decidiu que era hora de focar mais em si mesma e no seu caminho.  Eis que em uma noite ela recebe o telefonema de Yuchi, que desesperado lhe conta que Eriko morreu há alguns meses, mas até então ele não tinha tido coragem para contar à Mikage.  Este incidente acaba servindo indiretamente como motivo para novamente Mikage e Yuchi, estreitarem sua relação em meio ao luto, ambos buscam fazer florescer o amor que um sente pelo outro, e que até ali, nenhum deles tinha tentado lutar por este amor.

Assim como na novela anterior, o conto Moonlight Shadow também trabalha com as questões da tentativa de superar o luto, para que só então se possa transcender a dor, e estar mais próximo da felicidade.  A jovem Satsuki perdeu seu namorado, Hitoshi há pouco tempo em um acidente, junto com ele morreu Yumiko, namorada de Hiragi, irmão mais novo de Hitoshi. Estas duas mortes acabam por abalar a vida de Satsuki, e em menor grau de Hiragi, mas o surgimento da jovem Urara, terá um papel fundamental na ajuda para com que Satsuki, e indiretamente Hiragi, consigam seguir em frente, mesmo em meio ao luto.

Eu posso compreender perfeitamente o motivo pelo qual este conto está junto com a novela Kitchen, pois além de falar sobre luto, busca de identidade, Banana Yoshimoto fala, sobretudo sobre o quanto as situações adversas podem nós fazer transcender aquilo que somos, e nos moldar para melhor amadurecimento, e é claro que o crescimento não virá sem dor, que a princípio parecem instransponíveis.

Outro ponto que me encantou na narrativa foi a forma como ela abordou a transexualidade de Eriko, quando houve uma necessidade de explicação para o porquê de Eriko ter mudado de sexo, a autora não justiçou com disforia, e sim, pelo fato de em determinado momento a personagem pensar que viver como mulher seria mais fácil para ela. Ou, aí não entrando tanto na questão de gênero, quando Hiragi passa a usar o uniforme de sua falecida namorada, que é inclusive composto por saia, não por ser gay, mas tão simplesmente por se sentir melhor, naquele momento com estas roupas. Em síntese ela não cai em grandes explanações sobre transexualidade, ou roupas para cada gênero, estas questões estão na obra como características de seus personagens,  e como deve ser,  de forma que eles estejam integrados a própria trama em si, quando pensamos nisso hoje parece algo corriqueiro, mas se lembrarmos que este livro foi  lançado em 1988, e ainda não existia tantas obras  literárias com questões sobre gênero, é no mínimo algo interessante o quanto a autora já se mostrava capaz de perceber estes personagens e atitudes, e os recriar em suas obras.

No posfácio do livro Banana Yoshimoto afirma; “Crescer é superar obstáculos; acho que nestas duas coisas está escrita a história espiritual de cada um de nós. (…) E ainda gostaria de dizer a todas as pessoas desconhecidas que irão ler este meu primeiro e imaturo trabalho, que se conseguisse fazê-las sentir-se só um pouquinho mais animadas, não poderia haver para mim alegria maior”. E eu como leitor asseguro que ela consegue, por meio de uma prosa com traços de lirismo, mas sem ser piegas, Banana Yoshimoto consegue captar a beleza que existe no processo de crescimento, assim como as flores que crescem mesmo sem que consigamos ver o momento exato, a beleza de Kitchen reside no crescimento de seus personagens sem perder a própria essência.  E quando eu acabei esta leitura, senti aquela sensação deliciosa de uma leitura que toca diretamente meu coração enquanto leitor e ser humano.

A linha da beleza – Alan Hollinghurst

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Eu poderia dizer que A linha da beleza narra; a) uma história sobre os anos oitenta e a revolução sexual que eles geraram, b) o cotidiano de uma família de classe média alta cujo pai trabalha no parlamento do governo inglês, na era Thatcher, c) alguns anos da vida de um jovem, homossexual, promissor, que vive com a família de classe média de um amigo, e este jovem gay está em ascensão na sociedade. O mais coreto, talvez, seja eu ressaltar que as três possibilidades podem ser aceitadas como corretas, pois estes são os temas, e nuances envolvidos neste grandioso romance, vencedor do Man Booker Prize, de 2004. (Uma coisa que um chamativo cinto rosa, não me deixa esquecer)

Composto por três partes; o acorde do amor (1983), a quem pertence esta beleza? (1986) e o fim da linha (1987) Nick Guest, é um jovem de vinte anos, homossexual, recém-formado em Oxford, e que é aluno de doutorado em literatura. Nick está vivendo um tempo na casa de seu amigo Toby, este por sua vez além de estudar com Nick, é membro de uma família de classe média, cujo pai é um político importante dentro do parlamento inglês. De todos os membros da casa a que Nick mais passa a ter intimidade é a jovem Catherine, a irmã mais nova de Toby, uma moça que sofre com algum tipo de problema mental, não nomeado pelo autor, mas que parece ser a síndrome de Borderline, em alguns momentos refere-se a remédios que ela toma para se tratar. Ainda na mesma casa vivem os pais de Toby e Catherine, o casal Gerald Fellden e sua esposa Rachel.

Como um integrante, mesmo que temporário desta casa Nick passa a ter acesso a um grande leque de pessoas da alta sociedade, festas e eventos sociais, que se por um lado são cheios de cocaína e álcool, por outro é marcado por um constante verniz social, no qual muito tem segredos e facetas não tão bonitas para esconder ou manejar. E neste meio Nick, passa a desenvolver uma grande desenvoltura em suas relações sociais, além de ter sua vida amorosa e sexual em pleno desenvolvimento, algo que em uma cidade do interior, próximo dos seus pais, ele não teria grandes chances.  Mas se por um lado ele passa a dominar e conhecer a alta sociedade em todas as suas nuances, aos poucos ele vai aprendendo a conhecer aquilo que está sob o verniz social; esnobismo, pequenas intrigas, preconceitos mascarados, vícios, aprendendo assim não somente sobre o verniz que recobre as relações sociais, mas o quanto existe de hipócritas nelas.

Outro aspecto muito bem explorado são os namoros/casos amoroso de Nick. Na primeira parte vemos ele se envolvendo com Leo, em seu primeiro relacionamento sério com outro homem, já na segunda e terceira parte, Nick já demonstra um pouco mais de maturidade (mas não segurança) em seu relacionamento com Wani, um jovem contemporâneo à Nick e Toby, que vem de uma família muito rica, ele e sua família imigraram do Líbano para a Inglaterra em busca de uma vida com maior estabilidade.

 A linha da beleza é um romance tipicamente inglês com longos trechos descritivos, e um certo grau de análise psicológica, é em meio a Inglaterra a era Thatcher.  Nas páginas finais do livro, o leitor poderá contemplar a sombra da AIDS que vai aumentando gradativamente e fazendo suas vítimas, em especial os gays, que era considerado um dos grupos de risco da doença desde aquela época, mas não somente eles e sim, muitos da geração dos anos 80 que viveram de forma desenfreada o uso de drogas e uma liberdade sexual, e acabou se transformando em uma geração que  já foi vista como  uma das que mais aproveitaram sua liberdade, eu a vejo porém como uma das que mais faltou limites. Apesar disso A linha da beleza é um livro de escrita envolvente e viciante, que dá ao leitor não só uma ideia do que foi os anos 80 como é um brinde a capacidade do escritor Alan Hollinghurst de recriar uma das gerações mais fascinantes. Se A linha da beleza fosse para ser definida em uma imagem, eu a definiria como um melancólico entardecer que paira sobre o horizonte desta geração.    

Mathilda – Mary Shelley

 

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Eu não tenho paciência alguma com livros em que os personagens centrais estão presos ao seu sofrimento, e buscam disfarçar isso com um discurso do tipo que finge analisar seu sofrimento quando na verdade isso é só uma forma de dizer que está cheio de auto piedade por si mesmo. É este o caso de Mathilda, a protagonista de uma novela que homônima e talvez isso seja um dos motivos pelo qual achei este livro profundamente cansativo.

Eu caí na besteira de pensar que já que Mary Shelley escreveu o romance Frankenstein (que ainda não li, mas é muito elogiado) as chances de ela escrever um livro ruim seriam mínimas, mas é claro, quando se trata das coisas piorarem por menor que uma chance seja quase sempre ela piora.  E, para mim, Mathilda é justamente um livro ruim, ou no mínimo bem cansativo como narrativa.

Escrito em forma de carta para um amigo, e narrado em primeira pessoa Mathilda conta a história da jovem Mathilda. Ao nascer Mathilda perde a mãe no parto, e diante desta grande perda o pai acaba a deixando aos cuidados de uma tia e viaja para a Índia e Pérsia para tentar esquecer sua dor. Mathilda, apesar de possuir pouco ou nenhum convívio social, é muito bem-educada. O pai dela acaba voltando quando ela tem dezesseis anos, e pouco tempo após a morte da tia dela, ele leva Mathilda para morar em Londres, e durante um tempo eles vivem em jantares e recepções, mas passado um certo tempo o pai passa a tentar afastar Mathilda de perto dele, posteriormente ele acaba se refugiando numa propriedade onde  ele  passa a trata-la de forma fria e  agressiva, até que em busca de respostas, ela o confronta e descobre que ele  está apaixonado por ela,  por ver nela a figura de sua mãe. Após estas descobertas eles escolhem se separar e Mathilda passa viver em uma casa no meio de um tipo de floresta. E lá ela encontra um amigo, que também tem uma história profundamente triste da qual ela houve e se compadece dele.

A própria história por trás deste livro é um bocado interessante; Mary Shelley é filha de Willian Godwin, que era um jornalista e escritor e sua mãe era Mary Wollstonecraf, conhecida por ser uma das fundadoras do feminismo. Mathilda foi escrita uma no depois de Frankenstein e Mary Shelley entregou os originais ao seu pai, mas ele nunca os devolveu, levando o livro a ser descoberto e publicado somente em 1959.

Eu achei este livro extremamente cansativo, e apesar de ler que Mathilda é uma história de uma mulher que busca amor e redenção, das culpas que foram infligidas a ela. A todo momento o tom de Mathilda me incomodou e irritou profundamente, achei forçado, cheio de auto piedade disfarçada em uma trama onde sobra sofrimentos e falta lucidez em todos os personagens, que por sua vez todos tem discursos eloquentes (e quando a eloquência é usada para narrar os martírios da vida, este discurso   com grandes chances, será algo tedioso), para mim somado a tudo isso o ritmo sempre arrastado da trama, este livro foi uma perca de tempo.  Uma pena, já que a edição da editora Grua, é um trabalho muito bem feito.