Os Diários de Sylvia Plath 1950 – 1962 – Sylvia Plath, Karen V. Kukil (editora)

diários

Como pensar sobre a qualidade técnica de diários escritos sem a autora saber que seriam publicados? Como julgar o que ali poderia ser omitido, ou cortado como excesso sem que com isso se perca a fidelidade ao que foi escrito?  Existe um jeito de julgar a literatura confessional chegando a um ponto de dizer: acho que aqui o sofrimento narrado pala autora está sendo exagerado ou dramático?  Estas são algumas das questões práticas que me vem à cabeça enquanto leitor do livro Os Diários de Sylvia Plath, que transcreve de forma totalmente fiel ao que foi escrito pela escritora em seus diários, que vão de 1950 (ano em que ela entra na faculdade) até 1962 (cerca de um ano antes dela se suicidar).

Sylvia Plath mantinha diários desde os onze anos, mas a escolha do material que ia ser utilizado, e respectivamente de que ano a que ano foram baseadas nos diários que abrangem o começo da sua vida adulta como estudante, escritora e principalmente mulher (pode ser que eu esteja errado, mas acredito que a escolha de  que período seria abrangido na obra tem uma ligação também com o tamanho que o livro iria ficar no fim, pois se em um período de doze anos resultou em 835 páginas imagine só se fosse abrangido  o período dos onze anos, quando ela começa escrever diários, até os trinta anos quando  se suicidou.).

Se em tamanho o livro é grande em temas Plath consegue não deixar por menos, a autora descreve desde suas companheiras de alojamento na faculdade até esboço de poesias, passando por temas como; o homem ideal para se casar, observações sobre suas produções artísticas, desabafos sobre sua tremenda angustia, insatisfação e inquietação, dentre vários outros. Os pontos de vista dela são por várias vezes inusitados (como no trecho que ela reclama do fato de que a sociedade não permite que uma mulher tenha tesão por sexo em um nível tão grande quanto os dos homens, ou simplesmente o fato de ela quere se casar, não importando para isso como e com quem, o objetivo é casar e só. E até mesmo a sua busca desenfreada por se aperfeiçoar como escritora que a leva a se candidatar a um emprego de baba nas férias para que possa adquirir conhecimentos e   melhorias na sua escrita com a experiência.).

Não é raro os momentos em que o livro se tronou sufocante para mim durante a leitura, inclusive por um período perto do fim da leitura minha capacidade de concentração durante a leitura foi reduzida drasticamente, isso é claro pelo fato de ler os diários é um mergulho de cabeça na alma daquela que muitos amigos acham uma artista fascinante, e é neste momento que para mim a leitura cria uma tensão com a minha capacidade de avaliação; será que estou sendo injusto quando considero que alguns trechos poderiam ser cortados ou que ela foi melodramática, ou até mesmo  nos momentos em que o acho desinteressante ? Afinal ninguém julga assim claramente a vida e a dor dos outros (E quando se fala em Sylvia Plath haja dor, mesmo que ela esteja ali como uma angustia que paralisa, ou como uma insatisfação que pode a invadir nos momentos de felicidade até a culminância com seu suicídio.

A verdade é que quando eu leio estes diários eu posso ter uma compreensão maior do quanto a depressão é uma doença intrínseca na vida de alguém,  se o leitor olhar com um senso prático verá que a vida de Sylvia Plath tinha muitos mais pontos para dar certo do que errado, e mesmo assim dá errado, mesmo ela sendo uma  autora reconhecida pela sua qualidade, mesmo ela tendo se casado com um homem que a amava, mesmo tendo bolsa nas melhores universidades e por ai vai uma grande quantidade de mesmos que só poderiam (teoricamente) dar certo, mas a depressão se insinua, de forma constante e irreparável na vida de Plath,  fazendo com que ela tentasse se suicidar em 1953 e outra vez (desta vez consegue) uma década depois.

Apesar de eu ter achado o livro em vários momentos desinteressante ou cansativo o que mais me irrita foi o trabalho feito por Karen V. Kukil, para mim como editora ela é mais amadora do que eu como resenhista. Não existe um prólogo ou qualquer coisa do gênero dizendo coisas básicas sobre Sylvia Plath e seu período de vida antes do abordado nos diários. A organização escolhida pela editora deixa a desejar (e muito); notas são inseridas no fim do livro e para cada caderno existe um apêndice (ou mais), porém assim como as notas eles se encontram no final do livro (ao invés de uma forma mais prática: cada apêndice ser inserido no final do caderno que ele se refere). Chegou um momento em que eu ia e voltava mais as páginas do livro do que lia ele (o livro nesta ordem; diários, apêndices, notas e notas do apêndice) ou seja cheguei ao patético ponto de usar quatro marcadores por causa de uma edição que se bem pensada poderia ter sido mais prática (afinal que tipo de leitor, por mais meticuloso que seja, se interessa em tornar um livro de 835 páginas um objetivo de academia muscular, onde você fica indo e voltando as páginas ?!). Mesmo que tenha sido organizado lista com que página foi referido cada nome, ou em quem era cada pessoa citada, acho que a edição fica a dever em praticidade e conforto durante a leitura, e se isso acontece com os diários de uma artista tão aclamada eu me pergunto o porquê de um editor ali, seria simplesmente um objeto/profissional ornamental ?!

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2 respostas em “Os Diários de Sylvia Plath 1950 – 1962 – Sylvia Plath, Karen V. Kukil (editora)

  1. Gostei de ver você colocar a descrição de sua frustração com Plath. Eu abandonei esse livro e respeito muito quem se dedique à sua leitura… porque para mim foi insuportável.

    Como sempre gosto de ver o seu enfoque. 😉

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