Noites de Alface – Vanessa Barbara

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Existe dois motivos para eu escolher Noites de Alface como minha próxima leitura, o primeiro, e também mais obvio, é o começo do livro; “Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoito abertos em cima do sofá- Ada tinha ido emborra sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias. ” O segundo, e bem mais decisivo na escolha de porque eu leria este livro naquele momento, foi o fato de ele ser um romance pequeno e aparentemente não muito denso.

Em Noites de Alface será contada a história do casal de idosos Otto e Ada, ou melhor da vida de Otto após a morte de sua companheira de mais de cinquenta anos de casados. Eles vivem em uma casinha amarela em uma cidade pequena, sem qualquer parente ou familiar além deles dois. Enquanto Otto é taciturno e não conversa com ninguém da vizinhança exceto o senhor Tanaguchi, mas quando ele passa a ter Alzheimer Otto também o deixa de visitar e fica sem ter contado com ninguém da vizinhança. É justamente por este ostracismo de Otto que a morte de sua mulher passa a ser um golpe duplo, pois além de perder sua única companheira de tanto tempo ele perde também o elo que o ligava ao resto da vizinhança, pois ao contrário dele Ada era querida por todos, animada e sempre envolvida na comunidade local.

Através de cada capítulo Vanessa conta a história de um personagem que mora na mesma rua que Otto, os hábitos e peculiaridades de cada um são observados por Otto como uma forma de ele se sentir integrado a sua vizinhança, porém ele somente os observa mas não interage com eles, que em sua maioria são bem excêntricos; Senhor Tanaguchi, que viveu trinta anos lutando em uma Segunda Guerra Mundial que ele acreditava não ter acabado, Teresa uma datilógrafa de meia idade, que vive junto com seus três cães arteiros, Mariana, que após se casar abandonou seu mestrado em antropologia, Nico, um atendente de farmácia obcecado por  remédio e seus efeitos colaterais, Iolanda, que  acredita em todas as coisas esotéricas e vive com seu sobrinho aos gritos.

Se os outros personagens são observados por Otto não quer dizer que no livro ele é a figura do observador que nunca é notado a sério, a autora explora de forma sutil a figura de Otto usando para isso o contraste entre Otto e Ada. Enquanto ela era animada, social, prática e descomplicada Otto é todo seu oposto, não sendo raro então inúmeras coisas pensadas como Ada faria isso, mas Otto não, como por exemplo conversar com Nico sobre remédios. Os próprios vizinhos usam este contraste para entender o porquê Otto ser desta forma e o respeitar, seja pelo seu luto, seja simplesmente em nome da boa convivência, escolhendo na maioria dos casos não o importunar.

Dentre os hábitos de Otto está ver TV a cabo, tomar as vezes chá de alface (sim, daí o título), para sua insônia, ler livros de mistério, mas após a morte de Ada o principal é ir espionando pela janela a vida dos seus vizinhos, a consequência disso não raro é que muitas vezes ele acaba não compreendendo de todo os assuntos atuais, e passa a acreditar que um possível mistério está se formando na sua vizinhança, esta impressão dele pode ser efeito de ler tantos livros policias.( aqui me pergunto será que Vanessa tem conhecimento da teoria de que Emma Bovary, de Madame Bovary, foi impelida a  trair seu marido, após ler tantos livros sobre aventuras românticas ?, Não seria de admirar já que parece uma teoria muito similar sobre Otto e seus livros policiais….)

Em menos de duzentas páginas, o livro tem somente 168 páginas, a autora cria um livro leve, porém complexo que fala da dor do luto e da vida em uma pequena cidade de forma interessante e muito inteligente. Não é pelo fato de ele ser curto e fluir leve que deixa a dever a livros compactos e profundo (quem valoriza demais a profundidade, pode preferir morte por afogamento), não é à toa que a autora está entre os melhores autores brasileiros com menos de 30 anos da revista Granta.

 

 

 

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4 respostas em “Noites de Alface – Vanessa Barbara

  1. Muito bom. Boa resenha. No início pensei que seria um assunto que eu não quereria ler. Mas vc mostra que não devo pensar assim. Obrigada!

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