Fugitiva – Alice Munro

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Um prêmio Nobel de literatura faz milagres, autores que até então não tinham sido publicados no país, ou que já o tinham sido mas passaram despercebidos tanto pelos leitores quanto pela crítica agora são notados, muitos buscam adquirir um livro, no mínimo, do novo agraciado com o prêmio, em especial a espécie de leitor do qual faço parte, aquela que se guia pela crítica literária e aquilo que ela considera como sendo o bom livro. É este o caso da escritora canadense Alice Munro, que ganhou o Nobel em 2013, até então a escritora era pouco conhecida no Brasil e nem tão popular, apesar de seus livros merecerem o reconhecimento do público.

Em seu livros de contos Fugitiva (detalhe interessante é; Alice só escreve contos), temos oito contos, todos protagonizados por mulheres que estão as voltas com seus passados, sendo um sua maioria embates entre   os passados e as personalidades destas mulheres no tempo atual. No primeiro conto que dá nome ao livro uma mulher, infeliz com seu casamento, e sobretudo com seu marido tem a chance de escapar dele.

Nos contos Acaso, Logo e Silêncio, temos a mesma protagonista, Juliet Henderson, em diferentes momentos chave da sua vida, e assim como na vida real uma escolha feita em um conto, surgira como consequência em outros, mas isso não quer dizer que sejam escolhas melodramáticas, ou que elas serão tão importantes na sua vida a ponto de após serem tomadas tudo girar somente em torno delas. Um exemplo deste efeito dominó é que em Acaso a protagonista conhece um homem, em Logo ela vai visitar os pais e vê o quanto sua relação com seus pais mudaram por consequência da escolha de ficar com ele, e finalmente em Silêncio parece que nada mais tem ligação com aquilo que aconteceu nos dois contos anteriores, mas a relação está implícita ali assim como na vida real.

No conto Paixão uma jovem chamada Grace está noiva de Maury, mas ela não demonstra estar apaixonada nem estar ligando muito, mas por um motivo bobo ela acaba passando uma tarde com o meio irmão de Maury, um médico alcoólatra, e é entre eles dois que surgirá uma atração real.

Em Ofensas a autor adota o ponto de vista de uma criança, para explorar uma mentira que foi o centro da sua vida, desde que ela nasceu e os pais decidiram que seria melhor criar uma mentira sobre o passado, em geral eu não gosto de livros narrados pelo ponto de vista de crianças, mas neste caso gostei muito pelo fato de a autora não escolher maquiar a realidade com um tom bobo ou ingênuo, não que a criança fosse um prodígio, mas ela ao menos não floreia a realidade que está envolvida.

Logros conta a história de uma jovem enfermeira que vive com sua irmã mau humorada, o único escape da vida desta jovem é em todo verão viajar a cidade ao lado da sua e ir ver uma peça de Shakespeare e em uma vez ela conhece um jovem de Montenegro por quem se apaixona, mas ao final do conto vemos que a autora brinca o acaso, para criar o final deste conto de forma simplista, ao contrário do que acontece em Poderes onde a autora usa de forma um pouco mais nítida o poder do não dito, ou daquilo que está subtendido, ao contar a história de uma moça  e sua amiga Tessa que tem poderes sobrenaturais.

A Maioria dos protagonistas estão com suas vidas em suspenso, não seria isso uma das clarezas de como Munro cria contos incríveis usando acontecimentos cotidianos? pois afinal estar vivo é estar muitas vezes em suspenso até que um fato novo aconteça ou algo mude naquilo que estamos vivendo. Os cenários também são importantes em geral são cidades pequenas ou desconhecidas e o leitor muitas vezes vai adentrando nelas como quem vai conhecendo uma cidade pequena com suas particularidades e identidades geográficas e sócias.

Por último, mas não menos importante vale ressaltar; as obras de Munro são fascinantes não somente pela sua escrita elegante e astuta, mas pelo fato de elas muitas vezes parecerem transparentes, como as costuras de roupas que ficam longe da onde possamos a ver, e também por não estar “poluída” como boa parte da literatura atual se encontra, com autores que se sente impelidos a criar os personagens mais estranhos ou livros cheios de recursos, para usa-los simplesmente como suporte ao fato de não conseguirem criar tramas com simplicidade e inteligência.

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