Precisamos falar sobre o Kevin – Lionel Shriver

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A diferença que existe entre uma fatalidade e um crime é que no caso do crime quem quer, e sobretudo quem estiver disposto a isso, pode   voltar as raízes dele e descobrir que ele era intencional, e como foi que ele se tornou uma intenção, por parte do criminoso. Este processo, que aparentemente só leva quem sobreviveu, ou esteve direta ou indiretamente envolvido nele, na verdade é   uma coisa muito importante a ser feito, simplesmente pelo fato de ele ajudar a (re) criar uma ordem na vida de quem teve seus mundo virado em caos por uma violência brutal e irremediável.

É esta ajuda proporcionada pela compreensão que guiará Eva Khatchadoirian a escrever dezessete cartas a seu marido Franklin, buscando criar uma reflexão lucida e emocionante em meio ao caos que se tornou a sua vida, após seu filho Kevin, aos quinze anos, ter matado onze pessoas entre colegas e funcionários da escola onde estudava, e familiares. Porém Eva não é ingênua ao ponto de ver isso como um fato isolado, pelo contrário ela busca por meio das cartas criar um inventário de tudo o que tem se relacionado ao seu filho Kevin, desde o momento em que ele nasceu, até o fatídico dia.

Eva e Franklin vivem felizes e bem realizados, mas ela passa a notar que o marido não está plenamente satisfeito, e que ele deseja que tenham um filho, mas Eva não quer e com isso se passa alguns meses em negociações, até que finalmente ela cede.  Kevin nasce mas, não é amado pela mãe desde o princípio, pelo contrário ela nota que o seu filho é diferente das crianças normais, ele é mais irritadiço, quando não, demonstra uma apatia enorme. É então que ao longo dos anos vai se construindo uma espécie de competição silenciosa entre Eva e Kevin para ver quem terá sempre o apoio e o amor de Franklin, que invariavelmente prefere o filho a mulher, sendo cego as crueldades de Kevin.

Eva, pelo contrário não é cega ao fato de que tudo que envolve seu filho acaba se tornando acidentes misteriosos, que fazem com que cada vez mais babás, professores, e pais de amigos de escola se afastem de Kevin. Tornando assim Kevin um jovem fechado em si e com apenas um amigo durante toda a sua adolescência. Enquanto Franklin é cego de amor pelo seu filho, sua mulher consegue ver e se manter sempre contra o seu filho, pois não é de forma coincidente que onde Kevin está, em algum momento surge confusões, das quais ele consegue escapar muitas vezes sem levar a culpa nunca.

É em meio ao constante antagonismo com Kevin e sem sentir as maravilhas da maternidade que Eva decide engravidar uma segunda vez, e provar a si mesma que pode ser uma boa mãe, e consequentemente ter o famoso instinto materno. Quando Celia nasce, ela passa desde o início a ser hostilizada por Kevin, chegando em determinado momento a perder um olho, um suposto incidente do qual Kevin está envolvido. Ao contrário do irmão Celia é meiga e delicada, e logo se torna a filha que Eva sempre quis ter, mas por parte do pai recebe poucas atenções.

Eva então não é somente uma mãe vitimada pela situação, ela é uma mulher que foi desconectada de forma abrupta e violenta da sua vida e de sua família, ao longo de todas as 464 páginas de Precisamos falar sobre o Kevin, não estamos diante de uma mãe reclamando do filho, estamos diante de uma mulher que está em busca de sentido para sua vida, e a de seu filho, enquanto tem que visita-lo constantemente em um instituição para menores.

É esta mesma mãe que em nenhum momento é ingênua, ou se polpa da sua parcela de culpa, mas tampouco fica dramatizando ou se fazendo de coitada, pelo contrário ao longo de dezessete cartas, estamos diante de uma mulher corajosa e lucida, que sabe que somente a escrita destas cartas pode lhe proporcionar alívio, afinal ela é o filho são tudo o que restam no fim das contas.

É por tudo isso que eu disse que de fato Precisamos falar sobre o Kevin é com toda certeza uma das minhas melhores leituras do ano, esteve diante de uma romance visceral e com capacidade de causar impacto enorme, que não somente   me faz pensar, mas me faz me sentir vivo, mesmo que seja por meio da dor.

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4 respostas em “Precisamos falar sobre o Kevin – Lionel Shriver

  1. Estou muito orgulhosa de sua resenha. Você soube sentir a história de Eva, resumiu lindamente todo seu antagonismo e seu caminho pra continuar sobrevivendo. Discutimos esse livro, e ficamos nos perguntando se Eva perdoou ou não o Kevin. Alguns acharam que sim, a maioria acha que não. E você colocou muito bem, não é isso que importa, e sim continuar vivendo com toda a dor e achar um caminho na escuridão. E foi isso que Eva fez, ao reviver e tentar compreender toda à sua história.

    Parabéns!! Resenha nota 10!

    • Para mim, pelo final ela perdoou, acho que ela acaba aceitando que de certa forma o Kevin ser daquele jeito é parte da essência dele, e que ele é o mais próximo de família, que restou a ela.

      • Ela demonstra bem isso quando arruma o quarto para recebê-lo da maneira como ele gostava. Foi o que restou.

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