O lugar sem limites – José Donoso

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Eu não costumo acreditar em interpretações muito fácies ou obvias, e é isso que me incomoda na leitura de O lugar sem limites do escritor chileno José Donoso. Escrito em1966 e tendo como protagonista a travesti Manuela, o livro antecipa e muito estudos de gêneros, que só viriam a aparecer décadas mais tarde. Só que sinceramente eu não sei tem algo na contracapa que me deixa intrigado, não acredito que a única intenção do autor foi de denunciar o machismo e o patriarcado que reina na América latina, porém não consigo achar uma outra explicação para o poque de José Donoso ter decidido escrever este livro.

Ao longo de 157 páginas o livro conta a história da travesti Manuela, que com a sua filha Japonesita são donas de um prostíbulo no pequeno vilarejo de El Olivo, no interior do Chile. Este vilarejo é abandonado por tudo e todos. O único ali que vive uma boa vida de conforto é Don Alejo, um homem dono da maioria das terras do vilarejo, e que acaba por manipular a todos para que consiga fazer suas vontades e caprichos.

Quando Manuela pisou pela primeira vez em El Olivo, ela não imaginava que fosse acabar morando o resto da sua vida lá. O que fez com que ela ficasse foi o fato de a Japonesa Grande ter feito uma aposta com Don Alejo, a aposta consistia em se a Japonesa Grande conseguisse seduzir Manuela e fazer sexo com ela, o prostíbulo que era de Don Alejo seria dela. Mas desta relação acaba nascendo a Japonesita, que após a morte da mãe passa a ser sócia de Manuela no prostíbulo.

A relação de Manuela com sua filha Japonesita mostra ao leitor o quanto nós vemos os outros segundo aquilo que necessitamos ver, por que muitas vezes sentimos falta mesmo que de modo inconsciente, Japonesita insiste em chamar Manuela de papai, talvez porque queira que Manuela seja um pai que a proteja contra os homens violentos que frequenta o prostíbulo, mas está não é a vontade de Manuela que em sua identidade de gênero é mulher, e por isso ela não se sente capaz de defender a filha e nem a si mesma, e deseja que a filha a chame de mãe.

Quando o livro começa Manuela sua filha estão constantemente tensas com medo de que Pancho Vega possa ter retornando mais uma vez a cidade, já que dá última vez que ele passou pela cidade acabou indo no prostíbulo e pediu que Manuela dançasse para ele, e em vista da recusa por partes dela ele ficou enfurecido e prometeu que voltaria. Porém o que o leva ao prostíbulo não é vingança nem nada do tipo, é uma fascinação que ele sente por Manuela. É ele também um dos únicos personagens que sente coragem para enfrentar Don Alejo, e por isso se vê obrigado a viver fora da cidade.

O lugar sem limites é um livro triste, que me deixou com pena dos personagens que estão sempre desamparados e sem melhores perspectivas de vida em uma cidade esquecida por tudo e por todos. Não acredito que Manuela seja a única ali e que todo seu sofrimento seja única e exclusivamente pela sua identidade de gênero, pois no livro diz que após um tempo ela foi aceita e no momento atual ela é tratada de forma normal por toda a cidade. Acredito que o sofrimento de todos os personagens é pela falta de uma perspectiva melhor, talvez de tanto sofrer eles acabaram por perder a esperança. Mesmo assim é um livro que vale muito a pena ser lido por todos para compreendermos melhor como é a vida em alguns lugares da América latina

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3 respostas em “O lugar sem limites – José Donoso

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