Desesperados- Paula Fox

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Existem livros que são bons pelo fato de nos causarem incômodos, desconforto ou angústia, por que seus autores se recusaram a fazer uma narrativa agradável, e optaram por criarem obras fortes e perturbadoras, afinal a literatura também serve de confronto com a zona de conforto de cada leitor e não é feita somente por mero entretenimento (por mais que está última ideia me agradasse; a de uma literatura somente por diversão).

Desesperados, da norte – americana Paula Fox é um exemplo disso. Sophie Bentwood é uma mulher de meia idade, ex – tradutora, e juntamente com seu marido Otto se mudaram há pouco para uma casa no Brooklyn, por causa da recente especulação imobiliária (o ano presente que a narrativa se passa é em 1963),  sua casa  é rodeada de pobreza, com  vômitos e outros excrementos sempre nas calçadas e ruas, sem serem limpos, mas aqui a sujeira não está invadindo o espaço de Otto e Sophie, ao contrário eles, que juntamente com seus pares de classe média, são os invasores deste bairro, onde antes viviam negros, hispânicos e famílias com vários problemas:  do econômico à  má estruturação familiar.

Um dia ao decidir fazer uma boa ação, Sophie dá um pouco de leite a um gato de rua e como resultado ele a morde, este é o ponto de ruptura que começa a fazer ruir a segurança e estabilidade emocional do casal, não somente pela mordida do gato e a possibilidade de ele ter passado raiva à Sophie (ainda lembrando que estamos em 1963), mas este fato parece abrir caminho a uma longa trilha de insatisfações que a vida de ambos tem.

Este mesmo desconforto e constante incômodo podem ser notados de forma mais nítida, quando até mesmo as amigas de Sophie e pessoas cuja companhia antes lhe dava prazer agora são vistas com um olhar ligeiramente superior, ou com sentimento de que Sophie sente estar deslocada.  Até mesmo quando Sophie pensa em uma amante que   ela teve, logo o desconforto se instala nestas lembranças antes tão reconfortantes.

Já no caso de Otto, ao contrário de Sophie, ao mesmo tempo em que ele se sente desconfortável ele gera desconforto nos outros, com suas visões sempre tradicionais e esnobes, e seu autocontrole irritante, que faz com que ele não perca seus bons modos nem em situações que seriam o momento para perdê-los. Mas isso acontece principalmente nas suas relações exteriores, pois com Sophie muitas vezes ele perde ligeiramente a compostura, mas nada que dentro do livro fuja do perfil traçado para este personagem.

Outra forma de exasperação e   constante irritação para o casal é o ex-sócio de Otto, Charlie, que mesmo após desfeita a sociedade dos dois, insiste em criticar constantemente Otto ressaltando suas opiniões esnobes, que no trabalho representam somente   querer clientes que tenham uma “classe” e não casos que podem render escândalos ou de pessoas pobres.

Desesperados é um livro curto, são apenas 192 páginas, mas que deixa o leitor profundamente desconfortável, pelo fato de ser um romance cheio de arestas, onde temas como casamento, medo, inadequação são tratados de forma exata. Paula Fox cria uma escrita que lembra muito estilhaços de vidros; transparente, fria, exata e cortante, e isso pode deixar a impressão de que será livro ruim, mas pelo contrário é um livro que nos incomoda e faz lembrar que a dor e a estranheza também são uma forma de sentir o quanto estamos vivos.

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2 respostas em “Desesperados- Paula Fox

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