Por que a criança cozinha na polenta – Aglaj Veteranyi

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Quando um escritor escolhe uma criança para narrar seu livro, ele acaba invariavelmente jogando com a inteligência do leitor, afinal vários acontecimentos narrados por crianças se atêm naquilo que acontece de fato, e uma criança busca poucas interpretações, cabendo então ao leitor interpretar o peso correto naquilo que foi narrado e o que realmente tem. Em outras palavras, ao decidir que uma criança será o narrador a escritora faz algo parecido como virar um binóculo ao contrário; o objeto (fato narrado) é o mesmo, o que muda é a distância (ou seja a capacidade do leitor de compreender as nuances envolvendo o fato), e este é caso daquilo que acontece no maravilhoso “Por que a criança cozinha na polenta” da escritora Aglaj Veteranyi.

O livro é narrado por uma menina, de idade não mencionada, a qual creio ter entre dez e treze anos, de forma não linear, e muitas vezes fragmentada ela vai descortinando sua vida e de sua família, que vivem em um circo viajando pelo mundo.  A menina, que não é nomeada no livro, vive com sua tia, sua mãe (que se pendura pelos seus cabelos em um tipo de trapézio), seu pai (que é palhaço e acrobata no circo), sua irmã, apenas por parte de pai. O circo que eles integram viajam por vários países, fugindo de certa forma da Romênia, país, que no momento em que é contada a história, vive uma ditadura.

O livro possui quatro partes. Na primeira  somos apresentados à família da menina e sua rotina, na segunda a menina e sua irmã acabam  indo para um internato, na terceira parte a irmã da menina acaba saindo do internato, e a menina posteriormente vai embora de lá com sua mãe, que agora está separada do seu pai, e juntas elas percorrem algumas cidades, nas quais a menina é explorada e trabalha em casas de shows, já na  quarta e última parte a menina volta a passar um tempo no internato  para estudar e  tentar buscar uma formação e profissão para seu futuro.

É este olhar de criança, com sua inocência (se bem que a narradora em si é muito divertida) que narra um leque de violências e abusos na vida desta menina; brigas entre o pai e a mãe,  possivelmente ela nunca frequentou uma escola antes do internato, fica subtendido que o pai abusa  sexualmente da outra filha dele e tem   intenções de  abusar da  que narra o livro também;  falta de moradia, o peculiar hábito da família de matar e cozinhar frangos dentro dos quartos de hotéis, e por ai vai uma variedade de violência e crueldade da vida desta família que faria com que qualquer adulto fique pasmado e chocado.

Em meio a toda esta confusão o leitor tem em mãos uma joia literária onde o olhar de uma criança vai narrando a realidade que a circula de forma crua e direta, não tem como o leitor escapar desta crueldade que o livro possui, e o pior é   justamente isso: uma criança a narra como é seu cotidiano, isso é preocupante; o momento em que tanto para a narradora quanto para o leitor estas violências narradas deixam de ser abusos ou violências e passam a constituir parte da rotina da personagem. Para se evitar isso sugiro uma pequena reflexão; lembre, se algum dia você já caiu em uma superfície áspera e se aranhou em vários locais, se isso te aconteceu é muito provável que você não tenha notado de uma só vez todos os locais machucados e sim após uma longa examinada em seu próprio corpo, o mesmo vale para o livro, não espere que  logo após o final da leitura caísse a ficha de o quanto de crueldade que existe  na vida desta menina, ao contrário quanto mais você pensar no livro e se distanciar dele por algum tempo melhor,   você poderá perceber o quanto de violência e desolação está contido neste livro ao longo de suas  194 páginas, criando assim uma obra  de beleza ímpar, onde em meio a tanto caos ,  aos pouco vai surgindo uma delicada voz de criança que acaba se elevando acima de tanta desolação e proporciona uma visão privilegiada desta família.

Por que a criança cozinha na polenta é o único livro publicado da escritora romena Aglaj Veteranyi, que escreveu mais outros dois livros, que nunca foram publicados, já que ela se matou em 2002. Vale lembrar que este livro é muito difícil de achar aqui no Brasil e foi publicado pela editora DBA, integrando a coleção risco: ruído, e ele vale todo o esforço que gastei em ir atrás, seja pela sua ótima história, cuidado e competência com o qual foi feito este livro.

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