Quiçá – Luisa Geisler

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Eu, particularmente, acho muito interessante o fato de podermos alcançar determinado equilíbrio nas relações com pessoas que convivemos, seja está convivência opcional ou não. Sobretudo é interessante que estas relações deem certo sem, que em sua grande maioria, exista qualquer tipo de acordo ou negociação prévia, simplesmente acabamos nos adaptando ao outro ou vice e versa.

Em Quiçá, romance da escritora Luisa Geisler, boa parte da graça da trama se baseia em como se adquire e mantém uma convivência equilibrada.  A trama basicamente conta a história de Arthur, que está com 18 anos, e vai morar por um ano com seus tios Lorena e Augusto, após uma tentativa de suicídio. Na mesma casa vive a filha do casal, Clarissa, que tem 11 anos.

Tudo o que cerca Clarissa é feito para indicar o status de sua família; casa em um bairro privilegiado na maior cidade do país, roupas caras, Tevê de última geração, amigos ricos, escola particular, e aulas de música e de natação, porém isso não quer dizer que  tudo esteja certo, na contramão; ela está acima do peso, passa seus dias sozinha em casa, ou com seu gato, esquenta sua própria comida, e mau vê os próprios pais que chegam sempre tarde do serviço, e para piorar sua mãe sempre  acaba lhe dando roupas com números  que não correspondem as medidas da filha. O lado bom é que apesar de tudo isso a garota não se deixou tornar fútil, ao contrário, ela é bem mais madura e inteligente que as jovens da sua faixa etária.

Tudo muda, na vida e na rotina, de Clarissa e sua família, quando Arthur passa a morar com eles, sobretudo na de Clarissa. Arthur percebe logo de cara que algo ali está errado, e ele passa a convidar sua prima para sair com ele, ou fazer outra coisa, ele tenta mostrar a ela que a vida pode, e deve ser divertida, e não se reduzir somente a escola e casa. A relação de ambos que no começo era de desconfiança e receio mútuo aos poucos vai cedendo espaço para uma relação de intimidade e companheirismo.

Uma ressalva pessoal é que eu não acho de forma alguma que por estar acima do peso, passar seus dias em casa sozinha ou com seu gato sem se socializar seja um padrão para definir infelicidade, eu estou constantemente fora do meu peso ideal, não saio quase de casa, e não socializo e isso não quer dizer de forma alguma que eu seja infeliz, acho que aí entre em jogo a percepção de cada um daquilo que lhe é satisfatório ou não.

Já com os pais de Clarissa, Augusto e Lorena, a relação que começa com boa vontade por parte de todos logo vai sofrendo pequenas oscilações em seu equilíbrio, principalmente por parte de Lorena, que acaba não vendo com bons olhos várias atitudes de Arthur como não levar a escola a sério, não ficar em casa, estar até tarde, ou até mesmo passar noites fora com os amigos, estas coisas aos poucos vão minando a boa vontade de Lorena, mas  há também uma grande dose de implicância gratuita de Lorena para com seu sobrinho.

Em Quiçá a narrativa acontece de três formas diferentes, no começo e final de cada capítulo vai sendo narrados aos poucos um almoço de Natal, enquanto dentro dos capítulos está sendo narrado o cotidiano de Arthur e Clarissa durante o ano em que eles viveram juntos, e por fim na terceira forma, entre os capítulos a escritora inseriu, pequenos contos/fragmentos que em sua maioria não parecem estar ligados a história de Clarissa e Arthur, mas são tão interessantes quanto. Eu acredito que Luisa Geisler possa ter inserido estes pequenos textos como quebras de ritmo no romance em si, afinal se pensarmos bem que escritor escreve um romance de 240 páginas, como é o caso de Quiçá, de apenas uma vez ?!

Uma coisa que me chamou a atenção em Quiçá é que as cenas parecem variações de cenas que já aconteceram, o que muda de uma cena para a outra são as circunstâncias, ou seja, ali estão novamente os mesmos personagens, o mesmo local, a mesma situação, a diferença está no modo como a cena será manejada por Luisa Geisler, e isso ela faz muito bem, com sutileza e controle pleno da sua escrita.

Apesar de tudo isso Quiçá em um romance muito bom (mas ao contrário do que dizem por aí não é um livro de estreia, o primeiro livro de Luisa Geisler foi de contos, este é o primeiro romance dela) e com toda certeza está muito acima da média. É um livro do qual eu gostei muito de ter lido e conhecido o estilo da escritora, para mim a leitura valeu muito a pena.

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