A lebre com olhos de âmbar – Edmund de Waal

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Um flâneur é   comumente uma pessoa que passeia por um bairro ou região especifica   para experimentá-la, mas no caso de Edmund de Waal eu o vejo com um flâneur, mesmo que aquilo que ele não tenha andado ou experimentado aquilo que ele descreve no seu livro A lebre com olhos de âmbar, e é claro ele não poderia andar e experimentar aquilo que é narrado pelo simples fato de estar sendo narrados fatos que aconteceram a muitos anos atrás, porém ele passeia de forma segura e meticulosa  sobre a história de uma coleção de netsuquês,  que pertencem  a sua família a várias gerações, e é em meio ao ato de passear por esta história ele leva o leitor não só a conhecer a história dos netsuquês, como também uma bela aula sobre a história dos judeus na Europa durante  boa parte do séculos dezenove e vinte, além, é claro de conhecermos a história da própria família do autor.

Quando Edmund de Waal herdou do seu tio-avô Ignace uma coleção de 264 netsuquês (pequenas esculturas em marfim, feitas por artesões japoneses, em geral nenhuma maior do que uma caixa de fósforo), ele não imaginava quantas histórias estavam envolvidas, direta ou indiretamente, com estas esculturas.  Ele só sabia que elas estavam na posse de sua família a muitas gerações. E foi a partir da noção de que conhecer a história destas esculturas o ajudaria a conhecer também um pouco da história da sua própria família.

O primeiro dono dos netsuquês foi o tetravô de Edmund, Charles Ephrussi, editor de uma revista de artes e amigo pessoal de Proust (e que Edmund de Waal afirma ter sido uma das inspirações para o personagem Swann, que é um dos principais personagens dos primeiros volumes de Em busca do tempo perdido). Charles sempre esteve profundamente envolvido com a arte, e ao aderir ao japonismo que existia nos salões franceses da época, ele decide adquirir à pouca sua coleção de netsuquês. Posteriormente ele passa a ser vítima do antissemitismo da época gerado pelo caso Dreyfus.

Viktor Ephrussi ganha   os netsuquês como presente de casamento, mas apesar disso eles acabam ficando no quarto de vestir de sua mulher, Emmy, que não se importava muito com eles, ao contrário os interesses dela eram roupas e amantes. Após ela os netsuquês passam a ficar por um tempo com sua filha Elisabeth que assim como toda sua família demonstra grande apreço pela cultura, ela chegou inclusive a se corresponder com Rainer Maria Rilke, e foi uma das poucas mulheres da época ao ingressar em uma faculdade de direito.

É nesta parada em Viena que temos talvez uma ampliação, não intencional, do foco que o autor deu a história dos judeus na Europa central, e consequentemente no quanto este povo sofreu, sobretudo com o avanço das tropas nazistas em Viena, quando eles foram acusados de tudo aquilo que não estava dando certo na sociedade da época, não sendo raro, inclusive, que muitas pessoas acreditassem que os judeus estavam usurpando as pessoas que realmente eram de Viena.

O último dono dos netsuquês, antes de que eles cheguem as mãos de Edmund de Waal, foi Ignace, tetravô de Edmund e gay, ele passou a viver no Japão após a segunda guerra mundial. No mesmo lugar ele fundou sua empresa e arranjou um companheiro.

Como disse perfeitamente, o também escritor, Julian Barnes, em um dos elogios na capa do livro; “de maneira inesperada, combina a microarte das miniaturas com a macro história, em um efeito grandioso. ” Estas palavras são as mais exatas ao descrever a história desta coleção, em A lebre dos olhos de âmbar o que começa como uma coleção de pequenas esculturas, aos poucos por meio da narrativa de Edmund de Waal, vai ganhando sentidos mais amplos, a cada vez que são contextualizados, como em bonecas matrioskas,  surge um feito em cadeia, começando om uma coleção de esculturas,  que se transforma em um importante volume de memórias de uma das mais influentes e tradicionais famílias europeias,  passa por uma breve história da arte no século vinte,  e que  finaliza quando o leitor tem diante de si um grande panorama da história dos judeus na Europa, e consequentemente uma aula de história  sobre alguns dos mais importantes acontecimentos do século vinte.

Em meio a tantas informações fica a impressão ao leitor de que a prosa de De Waal, é cansativa e detalhista, e aí o leitor só estará parcialmente errado, é uma prosa extremante detalhista sim, mas nem um pouco cansativa, o autor consegue passar ao leitor um grande número de informações de forma interessante e com uma escrita extremamente elegante. Se por um lado fico feliz em saber que esta coleção permanece e que nela tantas histórias se entrelaçam, eu também fico triste por ter acabado a leitura deste livro, que li de forma voraz e posso garantir, é com toda certeza uma das minhas melhores leituras deste ano, e passou a fazer parte dos favoritos da minha vida.

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2 respostas em “A lebre com olhos de âmbar – Edmund de Waal

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