Kitchen – Banana Yoshimoto

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Em 1988 Banana Yoshimoto (o nome verdadeiro dela é Mahoko Yoshimoto, mas ela acabou por adotar o pseudônimo Banana, por achar de grande beleza as flores de bananeiras) lançava no Japão Kitchen, seu primeiro livro.  E foi este livro que abriu uma consagrada carreira de escritora, hoje podendo ser considerada, ao lado de Haruki Murakami, uma das figuras mais representativas da atual literatura japonesa.

Kitchen é composto: por uma novela homônima; a qual é dividida em duas partes: Kitchen e a segunda Lua Cheia (Kitchen 2), e pelo conto Moonlight Shadow. Na primeira parte da novela Kitchen, o leitor é apresentado a jovem Mikage, que é órfã de pais, e passou a morar com os avós. (No momento em que começa o livro ela acabou de perder a sua avó, mas logo após o enterro ela é convidada pelo jovem Yuchi Tanabe para morar com ele e sua mãe Eriko, que na verdade é o pai dele, que mudou de sexo, logo após a morte da mãe de Yuchi). Logo os Tanabe passam a ser uma nova família para Mikage, cuidando dela, e ela cuidando deles, formando uma linda relação, e é também com eles que ela consegue alcançar um amadurecimento maior, no qual, posteriormente irá impulsioná-la a voltar a conquistar sua independência.

Já em Lua Cheia (Kitchen 2) Mikage já mora sozinha e trabalha como assistente de uma importante cozinheira (lembrando que a relação especial com que a personagem tem na cozinha é tema logo do parágrafo de abertura do livro), passou um tempo sem que ela veja mais com tanta frequência Eriko e Yuchi, apesar de se gostarem muito, Mikage decidiu que era hora de focar mais em si mesma e no seu caminho.  Eis que em uma noite ela recebe o telefonema de Yuchi, que desesperado lhe conta que Eriko morreu há alguns meses, mas até então ele não tinha tido coragem para contar à Mikage.  Este incidente acaba servindo indiretamente como motivo para novamente Mikage e Yuchi, estreitarem sua relação em meio ao luto, ambos buscam fazer florescer o amor que um sente pelo outro, e que até ali, nenhum deles tinha tentado lutar por este amor.

Assim como na novela anterior, o conto Moonlight Shadow também trabalha com as questões da tentativa de superar o luto, para que só então se possa transcender a dor, e estar mais próximo da felicidade.  A jovem Satsuki perdeu seu namorado, Hitoshi há pouco tempo em um acidente, junto com ele morreu Yumiko, namorada de Hiragi, irmão mais novo de Hitoshi. Estas duas mortes acabam por abalar a vida de Satsuki, e em menor grau de Hiragi, mas o surgimento da jovem Urara, terá um papel fundamental na ajuda para com que Satsuki, e indiretamente Hiragi, consigam seguir em frente, mesmo em meio ao luto.

Eu posso compreender perfeitamente o motivo pelo qual este conto está junto com a novela Kitchen, pois além de falar sobre luto, busca de identidade, Banana Yoshimoto fala, sobretudo sobre o quanto as situações adversas podem nós fazer transcender aquilo que somos, e nos moldar para melhor amadurecimento, e é claro que o crescimento não virá sem dor, que a princípio parecem instransponíveis.

Outro ponto que me encantou na narrativa foi a forma como ela abordou a transexualidade de Eriko, quando houve uma necessidade de explicação para o porquê de Eriko ter mudado de sexo, a autora não justiçou com disforia, e sim, pelo fato de em determinado momento a personagem pensar que viver como mulher seria mais fácil para ela. Ou, aí não entrando tanto na questão de gênero, quando Hiragi passa a usar o uniforme de sua falecida namorada, que é inclusive composto por saia, não por ser gay, mas tão simplesmente por se sentir melhor, naquele momento com estas roupas. Em síntese ela não cai em grandes explanações sobre transexualidade, ou roupas para cada gênero, estas questões estão na obra como características de seus personagens,  e como deve ser,  de forma que eles estejam integrados a própria trama em si, quando pensamos nisso hoje parece algo corriqueiro, mas se lembrarmos que este livro foi  lançado em 1988, e ainda não existia tantas obras  literárias com questões sobre gênero, é no mínimo algo interessante o quanto a autora já se mostrava capaz de perceber estes personagens e atitudes, e os recriar em suas obras.

No posfácio do livro Banana Yoshimoto afirma; “Crescer é superar obstáculos; acho que nestas duas coisas está escrita a história espiritual de cada um de nós. (…) E ainda gostaria de dizer a todas as pessoas desconhecidas que irão ler este meu primeiro e imaturo trabalho, que se conseguisse fazê-las sentir-se só um pouquinho mais animadas, não poderia haver para mim alegria maior”. E eu como leitor asseguro que ela consegue, por meio de uma prosa com traços de lirismo, mas sem ser piegas, Banana Yoshimoto consegue captar a beleza que existe no processo de crescimento, assim como as flores que crescem mesmo sem que consigamos ver o momento exato, a beleza de Kitchen reside no crescimento de seus personagens sem perder a própria essência.  E quando eu acabei esta leitura, senti aquela sensação deliciosa de uma leitura que toca diretamente meu coração enquanto leitor e ser humano.

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