Esperando Bojangles – Olivier Bourdeaut

Em Esperando Bojangles existe um grande jogo de luz e sombras, o que é algo interessante, pois esse não é de forma alguma aquilo que eu definiria como um livro que possui uma atmosfera sombria. Porém, vou chamar de sombra, nesta resenha, aquilo que o narrador consegue lançar pouca luz, ou seja, aquilo que ele não consegue compreender bem, e de luz aquilo que ele consegue compreender. É claro que entre luz e sombras há a penumbra, que dentro deste livro equivaleria ao despertar da percepção do narrador sobre aquilo que ele narra. Essa pequena introdução se deve ao fato de o livro ser narrado por uma criança, e como eu sempre afirmo, aquilo que é narrado por uma criança está sujeito a ser uma narrativa que experimentara a percepção do narrador.

Narrado pelo filho de um casal de franceses, Esperando Bojangles tem um tom claramente hedonista, onde esse casal todo dia dá festas e recepções na sua casa, recebendo convidados famosos ou influentes. Entretanto, esse tipo de comportamento alegre e festivo não se dá somente durantes as festas, uma vez que o marido chama a esposa todo dia de um nome diferente, a esposa bebe bebidas alcoólicas a qualquer hora do dia, ambos nunca abrem as cartas endereçadas a eles, e nem se preocupam que o filho frequente a escola. Além de tudo isso, em plena Paris possuem, dentro do seu apartamento, um grus virgo que eles chama de Madame Supérflua, tudo isso ao som da música tema do casal: Mr. Bojangles, de Nina Simone. Desse modo, a narrativa, como já mencionado anteriormente, se dá através dos olhos do filho do casal, apesar de que, em alguns momentos, o enfoque muda e quem conta a estória é George, o marido.

Confesso que nas primeiras páginas eu já lia o livro com um olhar cético e esperando onde seria o fim de toda essa distensão, pois por mais que as loucuras que aconteciam na trama fossem ficcionais, chegaria uma hora que teria de acontecer alguma consequência delas para que o livro pudesse seguir com um mínimo de coerência. E isso veio com uma exatidão incrível, já que o autor soube como fazer surgir uma tensão no momento exato da narrativa (caso você esteja se perguntando qual seria o momento onde o hedonismo dá espaço à tensão, posso dizer que tal fato ocorre quando o narrador descobre que sua mãe tem que ser internada em uma clínica psiquiátrica, visto que ela é taxada como louca e pode deixar seu marido e filho em riscos de maior ou menor grau, fato que abala fortemente o pai e o filho).

Apesar disso, George acaba se lembrando da promessa que fez à sua esposa quando ambos se conheceram: de que onde ela estivesse lá ele também estaria. Assim, decidido a dar um jeito de tirar sua mulher da clínica psiquiátrica, novamente George, a mulher e o filho do casal voltam ao seu antigo estilo de vida, totalmente sem limites e cheio de aventuras e peripécias. No entanto, já fica claro para o leitor que essa será a última grande aventura da família, justamente pelo tom da narrativa e por questões lógicas, já que limites são parte importante de uma vida saudável.

Um outro ponto que Olivier Bourdeaut consegue explorar de forma muito inteligente nesse livro é a questão da loucura da mãe, pois em nenhum momento é mencionado exatamente qual é o transtorno ou doença mental dela (o que acarretaria, para o autor, no trabalho de ter que escrever sobre os padrões dessa doença ou transtorno, ou também na possiblidade de rechear seu livro de informações desnecessárias e maçantes sobre doenças mentais). Não obstante, o autor não banaliza o tema, já que ele consegue criar um histórico da doença de forma convincente e, sobretudo, consistente, tratando o tema de forma leve, bem humorada e inteligente.

Não me admira nem um pouco o fato de que o livro se tornou um best-seller na França e já tem seus direitos de publicação vendidos a vinte e nove países, pois a forma como Esperando Bojangles aborda a loucura e como a obra modela o modo de uma família de lidar com o mudo está além de um livro hedonista. Olivier Bourdeaut cria um ambiente delicado e bonito, permeado por uma leve melancolia para tratar de uma família feliz que, ao contrário daquilo que Tosltói afirma em Ana Karênina (“Todas as famílias felizes se parecem entre si; e as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”). Esperando Bojangles, em suas 128 páginas, se trata de uma família que foi feliz à sua maneira e que, com toda certeza, cabe ao leitor conhecer essa encantadora e linda estória.

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