Stoner – John Williams

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Chega a ser engraçado o fato de Stoner ser um livro cultuado por tanta gente, pois quando eu penso na trama do livro, a primeira palavra que me surge na mente para descrevê-lo: é comum. Não há nada ali que não possa acontecer na minha vida ou na vida de alguém próximo que eu conheço, e talvez seja isso a primeira coisa que me impressione quando fechei o livro após ter lido as suas 320 páginas. Afinal estou acostumado à arte, e na maioria das vezes lermos histórias pouco convencionais e criativas, mas cuja principal característica é me fazer pensar: “Não acontece isso tantas vezes na vida real. “

Aos dezenove anos William Stoner ingressa na faculdade, e isso é bastante incomum, para ele, por ele ser filho de camponeses que nunca estudaram. Ele começa a estudar literatura, após se formar ele arruma um emprego como professor na faculdade e ao mesmo tempo passa a seguir a carreira acadêmica. Ao longo dos anos Stoner se casa, passa a ser infeliz no casamento, tem uma filha, também tem um caso, e vai subindo lentamente alguns degraus mínimos da hierarquia na faculdade onde trabalha. Assim como qualquer pessoa normal a vida de Stoner também oscila entre alguns revezes e outros momentos de profunda felicidade e paz.

Talvez a característica que mais chama a atenção dos leitores de Stoner é o estoicismo e passividade do personagem, as suas atitudes muitas vezes me lembrou alguém que está sob uma forte chuva e ao invés de tentar seguir adiante se curva ao máximo para tentar evitar ser muito castigado, mas não reage, não com um mínimo de ímpeto ou força de vontade. O mais estranho para mim, é o quanto eu passei a gostar do personagem Stoner e torcer por ele, não que eu tenha algo contra, mas nunca fui do tipo que torcesse ou admirasse personagens passivos ou delicados, ao contrário sempre gostei muito mais de personagens fortes, pragmáticos e que não se curvam.

Uma das questões narrativas que me impressionou muito é que Stoner é um livro cuja narrativa começa com uma qualidade bem acima da média e simplesmente segue neste patamar sem sofrer oscilações em sua qualidade narrativa, se o livro não tem pontos altos que se destaquem em especial, tão pouco cai em momentos de chatice ou que se transforme em momentos cansativos ou desnecessários.  Esta observação não diz algo somente sobre mim, mas também sobre quem escreveu este livro, pois não é tão comum assim um livro ter tamanha uniformidade em sua escrita, sem que seja um livro mediano. Ao pensar sobre isso fica claro para mim, o quanto John Williams estava no pleno controle de cada linha daquilo que escrevia.

Para muitos leitores o grande trunfo de John Williams é de que ao retratar a vida absolutamente comum de Stoner, a história encanta as pessoas pela capacidade de se verem ali, ou não longe daquela vida que é de todo comum.  E isso é muito engraçado, pois para mim, o que eu gostei em Stoner não é a capacidade de espelho que a narrativa poderia exercer sobre minha vida, mas sim o fato de que Stoner lembra-me muito um vidro de janela no qual chegamos muito próximos para tentar ver através dele. E assim como acontece com o vidro, em Stoner há quem se perca contemplando seu próprio reflexo, ao invés de ver através deste vidro. Para mim a grande recompensa de ler Stoner está no fato de eu precisar abrir um livro e começar a olhar para ele, para só então conseguir ver através deste livro o fato de que, da vida mais comum pode- se surgir uma grande obra de arte. Para mim, ao escrever Stoner John Williams executando uma grande ode a vida comum.

Kitchen – Banana Yoshimoto

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Em 1988 Banana Yoshimoto (o nome verdadeiro dela é Mahoko Yoshimoto, mas ela acabou por adotar o pseudônimo Banana, por achar de grande beleza as flores de bananeiras) lançava no Japão Kitchen, seu primeiro livro.  E foi este livro que abriu uma consagrada carreira de escritora, hoje podendo ser considerada, ao lado de Haruki Murakami, uma das figuras mais representativas da atual literatura japonesa.

Kitchen é composto: por uma novela homônima; a qual é dividida em duas partes: Kitchen e a segunda Lua Cheia (Kitchen 2), e pelo conto Moonlight Shadow. Na primeira parte da novela Kitchen, o leitor é apresentado a jovem Mikage, que é órfã de pais, e passou a morar com os avós. (No momento em que começa o livro ela acabou de perder a sua avó, mas logo após o enterro ela é convidada pelo jovem Yuchi Tanabe para morar com ele e sua mãe Eriko, que na verdade é o pai dele, que mudou de sexo, logo após a morte da mãe de Yuchi). Logo os Tanabe passam a ser uma nova família para Mikage, cuidando dela, e ela cuidando deles, formando uma linda relação, e é também com eles que ela consegue alcançar um amadurecimento maior, no qual, posteriormente irá impulsioná-la a voltar a conquistar sua independência.

Já em Lua Cheia (Kitchen 2) Mikage já mora sozinha e trabalha como assistente de uma importante cozinheira (lembrando que a relação especial com que a personagem tem na cozinha é tema logo do parágrafo de abertura do livro), passou um tempo sem que ela veja mais com tanta frequência Eriko e Yuchi, apesar de se gostarem muito, Mikage decidiu que era hora de focar mais em si mesma e no seu caminho.  Eis que em uma noite ela recebe o telefonema de Yuchi, que desesperado lhe conta que Eriko morreu há alguns meses, mas até então ele não tinha tido coragem para contar à Mikage.  Este incidente acaba servindo indiretamente como motivo para novamente Mikage e Yuchi, estreitarem sua relação em meio ao luto, ambos buscam fazer florescer o amor que um sente pelo outro, e que até ali, nenhum deles tinha tentado lutar por este amor.

Assim como na novela anterior, o conto Moonlight Shadow também trabalha com as questões da tentativa de superar o luto, para que só então se possa transcender a dor, e estar mais próximo da felicidade.  A jovem Satsuki perdeu seu namorado, Hitoshi há pouco tempo em um acidente, junto com ele morreu Yumiko, namorada de Hiragi, irmão mais novo de Hitoshi. Estas duas mortes acabam por abalar a vida de Satsuki, e em menor grau de Hiragi, mas o surgimento da jovem Urara, terá um papel fundamental na ajuda para com que Satsuki, e indiretamente Hiragi, consigam seguir em frente, mesmo em meio ao luto.

Eu posso compreender perfeitamente o motivo pelo qual este conto está junto com a novela Kitchen, pois além de falar sobre luto, busca de identidade, Banana Yoshimoto fala, sobretudo sobre o quanto as situações adversas podem nós fazer transcender aquilo que somos, e nos moldar para melhor amadurecimento, e é claro que o crescimento não virá sem dor, que a princípio parecem instransponíveis.

Outro ponto que me encantou na narrativa foi a forma como ela abordou a transexualidade de Eriko, quando houve uma necessidade de explicação para o porquê de Eriko ter mudado de sexo, a autora não justiçou com disforia, e sim, pelo fato de em determinado momento a personagem pensar que viver como mulher seria mais fácil para ela. Ou, aí não entrando tanto na questão de gênero, quando Hiragi passa a usar o uniforme de sua falecida namorada, que é inclusive composto por saia, não por ser gay, mas tão simplesmente por se sentir melhor, naquele momento com estas roupas. Em síntese ela não cai em grandes explanações sobre transexualidade, ou roupas para cada gênero, estas questões estão na obra como características de seus personagens,  e como deve ser,  de forma que eles estejam integrados a própria trama em si, quando pensamos nisso hoje parece algo corriqueiro, mas se lembrarmos que este livro foi  lançado em 1988, e ainda não existia tantas obras  literárias com questões sobre gênero, é no mínimo algo interessante o quanto a autora já se mostrava capaz de perceber estes personagens e atitudes, e os recriar em suas obras.

No posfácio do livro Banana Yoshimoto afirma; “Crescer é superar obstáculos; acho que nestas duas coisas está escrita a história espiritual de cada um de nós. (…) E ainda gostaria de dizer a todas as pessoas desconhecidas que irão ler este meu primeiro e imaturo trabalho, que se conseguisse fazê-las sentir-se só um pouquinho mais animadas, não poderia haver para mim alegria maior”. E eu como leitor asseguro que ela consegue, por meio de uma prosa com traços de lirismo, mas sem ser piegas, Banana Yoshimoto consegue captar a beleza que existe no processo de crescimento, assim como as flores que crescem mesmo sem que consigamos ver o momento exato, a beleza de Kitchen reside no crescimento de seus personagens sem perder a própria essência.  E quando eu acabei esta leitura, senti aquela sensação deliciosa de uma leitura que toca diretamente meu coração enquanto leitor e ser humano.

A linha da beleza – Alan Hollinghurst

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Eu poderia dizer que A linha da beleza narra; a) uma história sobre os anos oitenta e a revolução sexual que eles geraram, b) o cotidiano de uma família de classe média alta cujo pai trabalha no parlamento do governo inglês, na era Thatcher, c) alguns anos da vida de um jovem, homossexual, promissor, que vive com a família de classe média de um amigo, e este jovem gay está em ascensão na sociedade. O mais coreto, talvez, seja eu ressaltar que as três possibilidades podem ser aceitadas como corretas, pois estes são os temas, e nuances envolvidos neste grandioso romance, vencedor do Man Booker Prize, de 2004. (Uma coisa que um chamativo cinto rosa, não me deixa esquecer)

Composto por três partes; o acorde do amor (1983), a quem pertence esta beleza? (1986) e o fim da linha (1987) Nick Guest, é um jovem de vinte anos, homossexual, recém-formado em Oxford, e que é aluno de doutorado em literatura. Nick está vivendo um tempo na casa de seu amigo Toby, este por sua vez além de estudar com Nick, é membro de uma família de classe média, cujo pai é um político importante dentro do parlamento inglês. De todos os membros da casa a que Nick mais passa a ter intimidade é a jovem Catherine, a irmã mais nova de Toby, uma moça que sofre com algum tipo de problema mental, não nomeado pelo autor, mas que parece ser a síndrome de Borderline, em alguns momentos refere-se a remédios que ela toma para se tratar. Ainda na mesma casa vivem os pais de Toby e Catherine, o casal Gerald Fellden e sua esposa Rachel.

Como um integrante, mesmo que temporário desta casa Nick passa a ter acesso a um grande leque de pessoas da alta sociedade, festas e eventos sociais, que se por um lado são cheios de cocaína e álcool, por outro é marcado por um constante verniz social, no qual muito tem segredos e facetas não tão bonitas para esconder ou manejar. E neste meio Nick, passa a desenvolver uma grande desenvoltura em suas relações sociais, além de ter sua vida amorosa e sexual em pleno desenvolvimento, algo que em uma cidade do interior, próximo dos seus pais, ele não teria grandes chances.  Mas se por um lado ele passa a dominar e conhecer a alta sociedade em todas as suas nuances, aos poucos ele vai aprendendo a conhecer aquilo que está sob o verniz social; esnobismo, pequenas intrigas, preconceitos mascarados, vícios, aprendendo assim não somente sobre o verniz que recobre as relações sociais, mas o quanto existe de hipócritas nelas.

Outro aspecto muito bem explorado são os namoros/casos amoroso de Nick. Na primeira parte vemos ele se envolvendo com Leo, em seu primeiro relacionamento sério com outro homem, já na segunda e terceira parte, Nick já demonstra um pouco mais de maturidade (mas não segurança) em seu relacionamento com Wani, um jovem contemporâneo à Nick e Toby, que vem de uma família muito rica, ele e sua família imigraram do Líbano para a Inglaterra em busca de uma vida com maior estabilidade.

 A linha da beleza é um romance tipicamente inglês com longos trechos descritivos, e um certo grau de análise psicológica, é em meio a Inglaterra a era Thatcher.  Nas páginas finais do livro, o leitor poderá contemplar a sombra da AIDS que vai aumentando gradativamente e fazendo suas vítimas, em especial os gays, que era considerado um dos grupos de risco da doença desde aquela época, mas não somente eles e sim, muitos da geração dos anos 80 que viveram de forma desenfreada o uso de drogas e uma liberdade sexual, e acabou se transformando em uma geração que  já foi vista como  uma das que mais aproveitaram sua liberdade, eu a vejo porém como uma das que mais faltou limites. Apesar disso A linha da beleza é um livro de escrita envolvente e viciante, que dá ao leitor não só uma ideia do que foi os anos 80 como é um brinde a capacidade do escritor Alan Hollinghurst de recriar uma das gerações mais fascinantes. Se A linha da beleza fosse para ser definida em uma imagem, eu a definiria como um melancólico entardecer que paira sobre o horizonte desta geração.    

Mathilda – Mary Shelley

 

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Eu não tenho paciência alguma com livros em que os personagens centrais estão presos ao seu sofrimento, e buscam disfarçar isso com um discurso do tipo que finge analisar seu sofrimento quando na verdade isso é só uma forma de dizer que está cheio de auto piedade por si mesmo. É este o caso de Mathilda, a protagonista de uma novela que homônima e talvez isso seja um dos motivos pelo qual achei este livro profundamente cansativo.

Eu caí na besteira de pensar que já que Mary Shelley escreveu o romance Frankenstein (que ainda não li, mas é muito elogiado) as chances de ela escrever um livro ruim seriam mínimas, mas é claro, quando se trata das coisas piorarem por menor que uma chance seja quase sempre ela piora.  E, para mim, Mathilda é justamente um livro ruim, ou no mínimo bem cansativo como narrativa.

Escrito em forma de carta para um amigo, e narrado em primeira pessoa Mathilda conta a história da jovem Mathilda. Ao nascer Mathilda perde a mãe no parto, e diante desta grande perda o pai acaba a deixando aos cuidados de uma tia e viaja para a Índia e Pérsia para tentar esquecer sua dor. Mathilda, apesar de possuir pouco ou nenhum convívio social, é muito bem-educada. O pai dela acaba voltando quando ela tem dezesseis anos, e pouco tempo após a morte da tia dela, ele leva Mathilda para morar em Londres, e durante um tempo eles vivem em jantares e recepções, mas passado um certo tempo o pai passa a tentar afastar Mathilda de perto dele, posteriormente ele acaba se refugiando numa propriedade onde  ele  passa a trata-la de forma fria e  agressiva, até que em busca de respostas, ela o confronta e descobre que ele  está apaixonado por ela,  por ver nela a figura de sua mãe. Após estas descobertas eles escolhem se separar e Mathilda passa viver em uma casa no meio de um tipo de floresta. E lá ela encontra um amigo, que também tem uma história profundamente triste da qual ela houve e se compadece dele.

A própria história por trás deste livro é um bocado interessante; Mary Shelley é filha de Willian Godwin, que era um jornalista e escritor e sua mãe era Mary Wollstonecraf, conhecida por ser uma das fundadoras do feminismo. Mathilda foi escrita uma no depois de Frankenstein e Mary Shelley entregou os originais ao seu pai, mas ele nunca os devolveu, levando o livro a ser descoberto e publicado somente em 1959.

Eu achei este livro extremamente cansativo, e apesar de ler que Mathilda é uma história de uma mulher que busca amor e redenção, das culpas que foram infligidas a ela. A todo momento o tom de Mathilda me incomodou e irritou profundamente, achei forçado, cheio de auto piedade disfarçada em uma trama onde sobra sofrimentos e falta lucidez em todos os personagens, que por sua vez todos tem discursos eloquentes (e quando a eloquência é usada para narrar os martírios da vida, este discurso   com grandes chances, será algo tedioso), para mim somado a tudo isso o ritmo sempre arrastado da trama, este livro foi uma perca de tempo.  Uma pena, já que a edição da editora Grua, é um trabalho muito bem feito.

O conto do amor – Contardo Calligaris

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Muitas pessoas guiam as suas vidas em busca de respostas, e em especial é grande o número de pessoas que buscam respostas com mais afinco ainda, quando o que se está em jogo é a compreensão de questões ligadas sua própria história, ou qualquer outra coisa que as ajudem a    compreender melhor as suas identidades. E é claro que nesta segunda categoria acaba ficando subtendida a história da sua própria família; pais, mães, avôs e avós.

Em linhas gerais, eu poderia dizer que O conto do amor, primeiro romance do psicanalista Contardo Calligaris, é basicamente um livro sobre uma destas buscas; Carlo Antonini é um psicoterapeuta que vive em Nova York, um dia ao ver seu pai pela última antes de ele morrer, o seu pai acaba contando a Carlo, que em outra vida ele foi um dos ajudantes do pintor Sodoma, que pintou os afrescos do convento Monte Oliveto Maggiore, na Itália.  Doze anos após a morte do seu pai, e munido dos diários que herdou dele Carlo decide voltar a Itália, sua terra natal em busca de respostas, sobre quem realmente foi seu pai, ou em um sentindo mais amplo daquilo que seu pai quis dizer em seu leito de morte, que mensagem o pai dele queria lhe passar com tal declaração.

Carlo acaba fazendo várias viagens e seguindo em meio não só da busca por respostas sobre o passado do seu pai, mas também para entender melhor a vida e as obras de Giovanni Antonio Bazzi, mais conhecido como Sodoma, o pintor renascentista. Nesta viagem ele acaba passando por várias cidades como Siena, Florença, Monte Oliveto, Paris, Milão, dentre outros lugares.

E nestas buscas Carlo acaba conhecendo muitas pessoas, que podem ter feito parte do passado do seu pai, mas de todas as novas pessoas que ele conhece de longe a mais importante é Nicoletta, uma especialista em pinturas renascentistas, que foi criada por sua Vó Bice, uma das mais respeitadas falsificadoras e restauradoras de pinturas, da Itália do período fascista. E não é só Nicoletta que   passa a fazer parte da vida Carlo, em busca de suas respostas ele acaba conhecendo novas pessoas, que conviveram direta ou indiretamente com seu pai, muitas vezes deixando claro a grande diferença que existe entre a geração de Carlo e a de seu pai.

Durante a narrativa, que é bem curta, tem só 124 páginas, Contardo Calligaris deixa claro o quanto ele conhece e entende de artes em geral e o quanto domina técnicas de narrativas diferentes, como   usar mais de uma voz narrativa, brincar com a auto ficção, já que Contardo Calligaris também é um renomado psicanalista, e este livro surgiu da após ele herdar os diários de seu pai.

O conto do amor funciona muito bem como uma leitura de entretenimento, e neste ponto é muito divertido e bem amarrado, os problemas  dele começam  no momento em que o leitor fecha o livro, quando se fecha o livro  se percebe que as respostas de Carlo foram adquiridas  com muita facilidade, tudo se encaixa perfeitamente e  sem  nenhuma dificuldade,  e este funcionamento exato e  instantâneo é mais cabível, quando se fala em tecnologias, ou coisas mecânicas, como ao rodar   uma chave todo seu carro  começa a pegar, quando se fala  na vida, nada é tão fácil, e simples,  são poucas as coisas que se resolvem com tal grau de facilidade e o problema justamente é que na literatura se reproduz a vida, e não engrenagens, que funcionam perfeitamente, se pararmos para pensar desde a Odisseia,  a literatura narra as dificuldades da vida humana. Mas vale deixar claro que apesar desta superficialidade, como leitura de entretenimento este é um livro que vale a pena dar uma boa conferida.

Sergio Y. vai à América – Alexandre Vidal Porto

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(Está resenha contém spoilers, então caso você ainda não tenha lido este livro, espero que não se importe com spoilers, ou então leia o livro, e depois volte aqui e comente a resenha)

Até Sergio Y. vai à América ser lançado, escrever sobre transexualidade com uma visão otimista parecia inconcebível. Os escritores pareciam não notar    as boas perspectivas que existem sobre o tema, e quando passamos a olhar um tema   de uma única forma consequentemente perdemos um espaço importante que seria muito melhor aproveitado se passássemos a questionar a forma como olhamos.  Cada vez que decidimos encarar um assunto de uma nova forma a própria arte em si ganha, ganha em originalidade, e em maturidade na abertura de novas perspectivas e novos debates.

Eu não posso falar sobre Sérgio Y. vai à América do escritor Alexandre Vidal Porto sem   com isso revelar um segredo da trama, o fato de que nela um dos dois personagens centrais é um transexual, e este detalhe    foi o que mais chamou a atenção de todos os leitores, meu inclusive que decidi ir atrás do livro após isso, e sobretudo porque ando muito interessado em ler livros com a temática gay, lésbicas, bissexuais, transexuais.

Armando é um psiquiatra renomado, de setenta anos, ele vive na cidade de São Paulo em um bairro nobre, e pertence a classe média. Ele é   um profissional bem-sucedido e respeitado, acostumado a selecionar quem ele tem interesse de atender em seu consultório. Mas   por mais que ele tenha sido bem-sucedido em várias coisas da sua vida, um antigo paciente o assombra, Sergio Y, um garoto que ele atendeu, quando o paciente ainda tinha dezessete anos.  Sergio era de classe média, tinha boas notas, família bem estruturada e tudo que materialmente parece fazer uma pessoa feliz, mas apesar de tudo ele é permanentemente infeliz. Ele acaba frequentando algumas sessões, mas logo decide interromper o tratamento, pois teria descoberto como se tornar feliz.

Um dos pontos fortes da narrativa é redirecionar o papel de psiquiatra para dentro da trama, quando o leitor na vida de Sergio e nos dando uma figura de um médico mais humanizado e muito menos onisciente, fazendo com que o leitor se sinta dentro da sala de análise. E posteriormente não só dentro do consultório, mas na vida de Sergio, e na do doutor Armando, deixando claro que não só Sergio estava em uma busca por sua identidade, e felicidade, como o próprio médico, posteriormente, passa a estar envolvido em uma busca, por respostas, para aplacar sua consciência.

O que chama a atenção em Sergio Y. vai à América é que   o livro fala de transexualidade e disforia de gênero, mas não se tem aqui um personagem marginalizado, ou em um contexto profundamente infeliz, como é retratado na maioria de relatos deste tipo, e aqui estou pesando sobretudo nos casos relatados em jornais, já que fora este o outro único livro que li com personagens transexuais é O lugar sem limites de José Donoso. Ao contrário este é um romance belo, e profundamente terno.

Sergio Y. vai à América não é um livro cheio de altos e baixos, e aí reside o grande mérito dele, é um livro muito regular e constantes, ele começa com um bom tom e ritmo, e se mantém assim até o final, não sofre grandes quedas em qualidade, e tampouco o autor cede a tentação de criar algo muito maior, e consequentemente desproporcional a aquilo que ele se propõe a narrar. Em suas   184 páginas o leitor tem em mãos um livro com uma prosa elegante, que conduz ao leitor uma bela história de transformação, e crescimento na busca de si mesmo, e o quanto   se auto conhecer está relacionado a felicidade de cada um.

A décima terceira história – Diane Setterfield

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Eu acredito que já é de conhecimento geral que apesar de eu ler compulsivamente todos os livros que me caem em mãos, eu tenho uma preferência bem simples; uma história bem contada. Estou   me referindo aos livros que são bons a ponto suficiente de não ser um simples romance comercial, mas tampouco são livros complexos, que podem ser considerados clássicos modernos.  Geralmente estes livros são caracterizados por serem livros que   me faz ter prazer em virar a página, e dos quais eu nunca fico conferindo constantemente quantas páginas ainda faltam para eu terminar de ler ele.

Dito isso, vamos ao enredo do romance A décima terceira história, da inglesa Diane Setterfield; Margaret Lea, trabalha com seu pai em um sebo, onde eles vendem   livros antigos, ela lê de forma compulsiva vários livros antigos, e entende muito sobre os livros e o sebo em que trabalha, ocasionalmente ela  escreve de forma amadora alguma biografia, mas  eis que um dia ela encontra no degrau da sua casa, uma carta endereçada a ela, oferecendo  a ela a oportunidade de  escrever a biografia oficial de Vida Winter. Por sua vez Vida Winter é a mais famosa e aclamada escritora inglesa viva e tudo que a cerca é repleta de mistérios, que ela própria ajuda a criar, se considerarmos que a cada vez que ela é entrevistada ela inventa uma biografia diferente.   E aos poucos Margaret vai descobrindo que o passado de Vida Winter tem mais segredos e lacunas do que ela imaginou a princípio.

Olhando superficialmente parece uma premissa bem simples e básica, mas aí está um dos trunfos de Diane Setterfield, conforme Vida Winter vai contando mais sobre sua vida a história passar a ganhar tons mais sombrios, que lembram um estilo de literatura gótica, com personagens e cenários mais soturnos, e é claro que não é gratuita as referências a livros das irmãs Brontë, ou a livros     em estilos góticos. Mas    as influências de estilo não   se reduzem a literatura gótica, temos uma governanta e um médico com espírito muito prático e uma grande paixão pela razão e pela ciência parecidos com as narrativas de Arthur Conan Doyle e Jane Austen. (Notar estas influências de estilo não são umas descobertas minhas, elas estão de forma mais explanadas e claras em uma outra ótima resenha, feita sobre este livro. Até porque não teria como e u notar   isso logo de cara, se considerarmos que as irmãs Brontë, Conan Doyle, e Jane Austen não são   os tipos de leituras que eu costumo fazer).

O livro em si, mesmo com todas estas influências não chega em momento algum a se tornar um livro maçante e cansativo para o leitor, ao contrário Diane Setterfield sabe como prender o leitor do começo ao fim, ao mesmo tempo em que cria uma história muito consistente e equilibrada. Quando    acabo o livro não acho que ela seja um novo clássico, mas ele tem uma matéria fundamental para prender qualquer leitor    nele, a paixão de contar, e ler uma boa história, e isso é um grande trunfo, se levarmos em conta o quanto o livro tem perdido espaço para tecnologias, ou outras atividades.