A linha da beleza – Alan Hollinghurst

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Eu poderia dizer que A linha da beleza narra; a) uma história sobre os anos oitenta e a revolução sexual que eles geraram, b) o cotidiano de uma família de classe média alta cujo pai trabalha no parlamento do governo inglês, na era Thatcher, c) alguns anos da vida de um jovem, homossexual, promissor, que vive com a família de classe média de um amigo, e este jovem gay está em ascensão na sociedade. O mais coreto, talvez, seja eu ressaltar que as três possibilidades podem ser aceitadas como corretas, pois estes são os temas, e nuances envolvidos neste grandioso romance, vencedor do Man Booker Prize, de 2004. (Uma coisa que um chamativo cinto rosa, não me deixa esquecer)

Composto por três partes; o acorde do amor (1983), a quem pertence esta beleza? (1986) e o fim da linha (1987) Nick Guest, é um jovem de vinte anos, homossexual, recém-formado em Oxford, e que é aluno de doutorado em literatura. Nick está vivendo um tempo na casa de seu amigo Toby, este por sua vez além de estudar com Nick, é membro de uma família de classe média, cujo pai é um político importante dentro do parlamento inglês. De todos os membros da casa a que Nick mais passa a ter intimidade é a jovem Catherine, a irmã mais nova de Toby, uma moça que sofre com algum tipo de problema mental, não nomeado pelo autor, mas que parece ser a síndrome de Borderline, em alguns momentos refere-se a remédios que ela toma para se tratar. Ainda na mesma casa vivem os pais de Toby e Catherine, o casal Gerald Fellden e sua esposa Rachel.

Como um integrante, mesmo que temporário desta casa Nick passa a ter acesso a um grande leque de pessoas da alta sociedade, festas e eventos sociais, que se por um lado são cheios de cocaína e álcool, por outro é marcado por um constante verniz social, no qual muito tem segredos e facetas não tão bonitas para esconder ou manejar. E neste meio Nick, passa a desenvolver uma grande desenvoltura em suas relações sociais, além de ter sua vida amorosa e sexual em pleno desenvolvimento, algo que em uma cidade do interior, próximo dos seus pais, ele não teria grandes chances.  Mas se por um lado ele passa a dominar e conhecer a alta sociedade em todas as suas nuances, aos poucos ele vai aprendendo a conhecer aquilo que está sob o verniz social; esnobismo, pequenas intrigas, preconceitos mascarados, vícios, aprendendo assim não somente sobre o verniz que recobre as relações sociais, mas o quanto existe de hipócritas nelas.

Outro aspecto muito bem explorado são os namoros/casos amoroso de Nick. Na primeira parte vemos ele se envolvendo com Leo, em seu primeiro relacionamento sério com outro homem, já na segunda e terceira parte, Nick já demonstra um pouco mais de maturidade (mas não segurança) em seu relacionamento com Wani, um jovem contemporâneo à Nick e Toby, que vem de uma família muito rica, ele e sua família imigraram do Líbano para a Inglaterra em busca de uma vida com maior estabilidade.

 A linha da beleza é um romance tipicamente inglês com longos trechos descritivos, e um certo grau de análise psicológica, é em meio a Inglaterra a era Thatcher.  Nas páginas finais do livro, o leitor poderá contemplar a sombra da AIDS que vai aumentando gradativamente e fazendo suas vítimas, em especial os gays, que era considerado um dos grupos de risco da doença desde aquela época, mas não somente eles e sim, muitos da geração dos anos 80 que viveram de forma desenfreada o uso de drogas e uma liberdade sexual, e acabou se transformando em uma geração que  já foi vista como  uma das que mais aproveitaram sua liberdade, eu a vejo porém como uma das que mais faltou limites. Apesar disso A linha da beleza é um livro de escrita envolvente e viciante, que dá ao leitor não só uma ideia do que foi os anos 80 como é um brinde a capacidade do escritor Alan Hollinghurst de recriar uma das gerações mais fascinantes. Se A linha da beleza fosse para ser definida em uma imagem, eu a definiria como um melancólico entardecer que paira sobre o horizonte desta geração.    

Mathilda – Mary Shelley

 

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Eu não tenho paciência alguma com livros em que os personagens centrais estão presos ao seu sofrimento, e buscam disfarçar isso com um discurso do tipo que finge analisar seu sofrimento quando na verdade isso é só uma forma de dizer que está cheio de auto piedade por si mesmo. É este o caso de Mathilda, a protagonista de uma novela que homônima e talvez isso seja um dos motivos pelo qual achei este livro profundamente cansativo.

Eu caí na besteira de pensar que já que Mary Shelley escreveu o romance Frankenstein (que ainda não li, mas é muito elogiado) as chances de ela escrever um livro ruim seriam mínimas, mas é claro, quando se trata das coisas piorarem por menor que uma chance seja quase sempre ela piora.  E, para mim, Mathilda é justamente um livro ruim, ou no mínimo bem cansativo como narrativa.

Escrito em forma de carta para um amigo, e narrado em primeira pessoa Mathilda conta a história da jovem Mathilda. Ao nascer Mathilda perde a mãe no parto, e diante desta grande perda o pai acaba a deixando aos cuidados de uma tia e viaja para a Índia e Pérsia para tentar esquecer sua dor. Mathilda, apesar de possuir pouco ou nenhum convívio social, é muito bem-educada. O pai dela acaba voltando quando ela tem dezesseis anos, e pouco tempo após a morte da tia dela, ele leva Mathilda para morar em Londres, e durante um tempo eles vivem em jantares e recepções, mas passado um certo tempo o pai passa a tentar afastar Mathilda de perto dele, posteriormente ele acaba se refugiando numa propriedade onde  ele  passa a trata-la de forma fria e  agressiva, até que em busca de respostas, ela o confronta e descobre que ele  está apaixonado por ela,  por ver nela a figura de sua mãe. Após estas descobertas eles escolhem se separar e Mathilda passa viver em uma casa no meio de um tipo de floresta. E lá ela encontra um amigo, que também tem uma história profundamente triste da qual ela houve e se compadece dele.

A própria história por trás deste livro é um bocado interessante; Mary Shelley é filha de Willian Godwin, que era um jornalista e escritor e sua mãe era Mary Wollstonecraf, conhecida por ser uma das fundadoras do feminismo. Mathilda foi escrita uma no depois de Frankenstein e Mary Shelley entregou os originais ao seu pai, mas ele nunca os devolveu, levando o livro a ser descoberto e publicado somente em 1959.

Eu achei este livro extremamente cansativo, e apesar de ler que Mathilda é uma história de uma mulher que busca amor e redenção, das culpas que foram infligidas a ela. A todo momento o tom de Mathilda me incomodou e irritou profundamente, achei forçado, cheio de auto piedade disfarçada em uma trama onde sobra sofrimentos e falta lucidez em todos os personagens, que por sua vez todos tem discursos eloquentes (e quando a eloquência é usada para narrar os martírios da vida, este discurso   com grandes chances, será algo tedioso), para mim somado a tudo isso o ritmo sempre arrastado da trama, este livro foi uma perca de tempo.  Uma pena, já que a edição da editora Grua, é um trabalho muito bem feito.

O conto do amor – Contardo Calligaris

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Muitas pessoas guiam as suas vidas em busca de respostas, e em especial é grande o número de pessoas que buscam respostas com mais afinco ainda, quando o que se está em jogo é a compreensão de questões ligadas sua própria história, ou qualquer outra coisa que as ajudem a    compreender melhor as suas identidades. E é claro que nesta segunda categoria acaba ficando subtendida a história da sua própria família; pais, mães, avôs e avós.

Em linhas gerais, eu poderia dizer que O conto do amor, primeiro romance do psicanalista Contardo Calligaris, é basicamente um livro sobre uma destas buscas; Carlo Antonini é um psicoterapeuta que vive em Nova York, um dia ao ver seu pai pela última antes de ele morrer, o seu pai acaba contando a Carlo, que em outra vida ele foi um dos ajudantes do pintor Sodoma, que pintou os afrescos do convento Monte Oliveto Maggiore, na Itália.  Doze anos após a morte do seu pai, e munido dos diários que herdou dele Carlo decide voltar a Itália, sua terra natal em busca de respostas, sobre quem realmente foi seu pai, ou em um sentindo mais amplo daquilo que seu pai quis dizer em seu leito de morte, que mensagem o pai dele queria lhe passar com tal declaração.

Carlo acaba fazendo várias viagens e seguindo em meio não só da busca por respostas sobre o passado do seu pai, mas também para entender melhor a vida e as obras de Giovanni Antonio Bazzi, mais conhecido como Sodoma, o pintor renascentista. Nesta viagem ele acaba passando por várias cidades como Siena, Florença, Monte Oliveto, Paris, Milão, dentre outros lugares.

E nestas buscas Carlo acaba conhecendo muitas pessoas, que podem ter feito parte do passado do seu pai, mas de todas as novas pessoas que ele conhece de longe a mais importante é Nicoletta, uma especialista em pinturas renascentistas, que foi criada por sua Vó Bice, uma das mais respeitadas falsificadoras e restauradoras de pinturas, da Itália do período fascista. E não é só Nicoletta que   passa a fazer parte da vida Carlo, em busca de suas respostas ele acaba conhecendo novas pessoas, que conviveram direta ou indiretamente com seu pai, muitas vezes deixando claro a grande diferença que existe entre a geração de Carlo e a de seu pai.

Durante a narrativa, que é bem curta, tem só 124 páginas, Contardo Calligaris deixa claro o quanto ele conhece e entende de artes em geral e o quanto domina técnicas de narrativas diferentes, como   usar mais de uma voz narrativa, brincar com a auto ficção, já que Contardo Calligaris também é um renomado psicanalista, e este livro surgiu da após ele herdar os diários de seu pai.

O conto do amor funciona muito bem como uma leitura de entretenimento, e neste ponto é muito divertido e bem amarrado, os problemas  dele começam  no momento em que o leitor fecha o livro, quando se fecha o livro  se percebe que as respostas de Carlo foram adquiridas  com muita facilidade, tudo se encaixa perfeitamente e  sem  nenhuma dificuldade,  e este funcionamento exato e  instantâneo é mais cabível, quando se fala em tecnologias, ou coisas mecânicas, como ao rodar   uma chave todo seu carro  começa a pegar, quando se fala  na vida, nada é tão fácil, e simples,  são poucas as coisas que se resolvem com tal grau de facilidade e o problema justamente é que na literatura se reproduz a vida, e não engrenagens, que funcionam perfeitamente, se pararmos para pensar desde a Odisseia,  a literatura narra as dificuldades da vida humana. Mas vale deixar claro que apesar desta superficialidade, como leitura de entretenimento este é um livro que vale a pena dar uma boa conferida.

Sergio Y. vai à América – Alexandre Vidal Porto

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(Está resenha contém spoilers, então caso você ainda não tenha lido este livro, espero que não se importe com spoilers, ou então leia o livro, e depois volte aqui e comente a resenha)

Até Sergio Y. vai à América ser lançado, escrever sobre transexualidade com uma visão otimista parecia inconcebível. Os escritores pareciam não notar    as boas perspectivas que existem sobre o tema, e quando passamos a olhar um tema   de uma única forma consequentemente perdemos um espaço importante que seria muito melhor aproveitado se passássemos a questionar a forma como olhamos.  Cada vez que decidimos encarar um assunto de uma nova forma a própria arte em si ganha, ganha em originalidade, e em maturidade na abertura de novas perspectivas e novos debates.

Eu não posso falar sobre Sérgio Y. vai à América do escritor Alexandre Vidal Porto sem   com isso revelar um segredo da trama, o fato de que nela um dos dois personagens centrais é um transexual, e este detalhe    foi o que mais chamou a atenção de todos os leitores, meu inclusive que decidi ir atrás do livro após isso, e sobretudo porque ando muito interessado em ler livros com a temática gay, lésbicas, bissexuais, transexuais.

Armando é um psiquiatra renomado, de setenta anos, ele vive na cidade de São Paulo em um bairro nobre, e pertence a classe média. Ele é   um profissional bem-sucedido e respeitado, acostumado a selecionar quem ele tem interesse de atender em seu consultório. Mas   por mais que ele tenha sido bem-sucedido em várias coisas da sua vida, um antigo paciente o assombra, Sergio Y, um garoto que ele atendeu, quando o paciente ainda tinha dezessete anos.  Sergio era de classe média, tinha boas notas, família bem estruturada e tudo que materialmente parece fazer uma pessoa feliz, mas apesar de tudo ele é permanentemente infeliz. Ele acaba frequentando algumas sessões, mas logo decide interromper o tratamento, pois teria descoberto como se tornar feliz.

Um dos pontos fortes da narrativa é redirecionar o papel de psiquiatra para dentro da trama, quando o leitor na vida de Sergio e nos dando uma figura de um médico mais humanizado e muito menos onisciente, fazendo com que o leitor se sinta dentro da sala de análise. E posteriormente não só dentro do consultório, mas na vida de Sergio, e na do doutor Armando, deixando claro que não só Sergio estava em uma busca por sua identidade, e felicidade, como o próprio médico, posteriormente, passa a estar envolvido em uma busca, por respostas, para aplacar sua consciência.

O que chama a atenção em Sergio Y. vai à América é que   o livro fala de transexualidade e disforia de gênero, mas não se tem aqui um personagem marginalizado, ou em um contexto profundamente infeliz, como é retratado na maioria de relatos deste tipo, e aqui estou pesando sobretudo nos casos relatados em jornais, já que fora este o outro único livro que li com personagens transexuais é O lugar sem limites de José Donoso. Ao contrário este é um romance belo, e profundamente terno.

Sergio Y. vai à América não é um livro cheio de altos e baixos, e aí reside o grande mérito dele, é um livro muito regular e constantes, ele começa com um bom tom e ritmo, e se mantém assim até o final, não sofre grandes quedas em qualidade, e tampouco o autor cede a tentação de criar algo muito maior, e consequentemente desproporcional a aquilo que ele se propõe a narrar. Em suas   184 páginas o leitor tem em mãos um livro com uma prosa elegante, que conduz ao leitor uma bela história de transformação, e crescimento na busca de si mesmo, e o quanto   se auto conhecer está relacionado a felicidade de cada um.

A décima terceira história – Diane Setterfield

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Eu acredito que já é de conhecimento geral que apesar de eu ler compulsivamente todos os livros que me caem em mãos, eu tenho uma preferência bem simples; uma história bem contada. Estou   me referindo aos livros que são bons a ponto suficiente de não ser um simples romance comercial, mas tampouco são livros complexos, que podem ser considerados clássicos modernos.  Geralmente estes livros são caracterizados por serem livros que   me faz ter prazer em virar a página, e dos quais eu nunca fico conferindo constantemente quantas páginas ainda faltam para eu terminar de ler ele.

Dito isso, vamos ao enredo do romance A décima terceira história, da inglesa Diane Setterfield; Margaret Lea, trabalha com seu pai em um sebo, onde eles vendem   livros antigos, ela lê de forma compulsiva vários livros antigos, e entende muito sobre os livros e o sebo em que trabalha, ocasionalmente ela  escreve de forma amadora alguma biografia, mas  eis que um dia ela encontra no degrau da sua casa, uma carta endereçada a ela, oferecendo  a ela a oportunidade de  escrever a biografia oficial de Vida Winter. Por sua vez Vida Winter é a mais famosa e aclamada escritora inglesa viva e tudo que a cerca é repleta de mistérios, que ela própria ajuda a criar, se considerarmos que a cada vez que ela é entrevistada ela inventa uma biografia diferente.   E aos poucos Margaret vai descobrindo que o passado de Vida Winter tem mais segredos e lacunas do que ela imaginou a princípio.

Olhando superficialmente parece uma premissa bem simples e básica, mas aí está um dos trunfos de Diane Setterfield, conforme Vida Winter vai contando mais sobre sua vida a história passar a ganhar tons mais sombrios, que lembram um estilo de literatura gótica, com personagens e cenários mais soturnos, e é claro que não é gratuita as referências a livros das irmãs Brontë, ou a livros     em estilos góticos. Mas    as influências de estilo não   se reduzem a literatura gótica, temos uma governanta e um médico com espírito muito prático e uma grande paixão pela razão e pela ciência parecidos com as narrativas de Arthur Conan Doyle e Jane Austen. (Notar estas influências de estilo não são umas descobertas minhas, elas estão de forma mais explanadas e claras em uma outra ótima resenha, feita sobre este livro. Até porque não teria como e u notar   isso logo de cara, se considerarmos que as irmãs Brontë, Conan Doyle, e Jane Austen não são   os tipos de leituras que eu costumo fazer).

O livro em si, mesmo com todas estas influências não chega em momento algum a se tornar um livro maçante e cansativo para o leitor, ao contrário Diane Setterfield sabe como prender o leitor do começo ao fim, ao mesmo tempo em que cria uma história muito consistente e equilibrada. Quando    acabo o livro não acho que ela seja um novo clássico, mas ele tem uma matéria fundamental para prender qualquer leitor    nele, a paixão de contar, e ler uma boa história, e isso é um grande trunfo, se levarmos em conta o quanto o livro tem perdido espaço para tecnologias, ou outras atividades.

A lebre com olhos de âmbar – Edmund de Waal

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Um flâneur é   comumente uma pessoa que passeia por um bairro ou região especifica   para experimentá-la, mas no caso de Edmund de Waal eu o vejo com um flâneur, mesmo que aquilo que ele não tenha andado ou experimentado aquilo que ele descreve no seu livro A lebre com olhos de âmbar, e é claro ele não poderia andar e experimentar aquilo que é narrado pelo simples fato de estar sendo narrados fatos que aconteceram a muitos anos atrás, porém ele passeia de forma segura e meticulosa  sobre a história de uma coleção de netsuquês,  que pertencem  a sua família a várias gerações, e é em meio ao ato de passear por esta história ele leva o leitor não só a conhecer a história dos netsuquês, como também uma bela aula sobre a história dos judeus na Europa durante  boa parte do séculos dezenove e vinte, além, é claro de conhecermos a história da própria família do autor.

Quando Edmund de Waal herdou do seu tio-avô Ignace uma coleção de 264 netsuquês (pequenas esculturas em marfim, feitas por artesões japoneses, em geral nenhuma maior do que uma caixa de fósforo), ele não imaginava quantas histórias estavam envolvidas, direta ou indiretamente, com estas esculturas.  Ele só sabia que elas estavam na posse de sua família a muitas gerações. E foi a partir da noção de que conhecer a história destas esculturas o ajudaria a conhecer também um pouco da história da sua própria família.

O primeiro dono dos netsuquês foi o tetravô de Edmund, Charles Ephrussi, editor de uma revista de artes e amigo pessoal de Proust (e que Edmund de Waal afirma ter sido uma das inspirações para o personagem Swann, que é um dos principais personagens dos primeiros volumes de Em busca do tempo perdido). Charles sempre esteve profundamente envolvido com a arte, e ao aderir ao japonismo que existia nos salões franceses da época, ele decide adquirir à pouca sua coleção de netsuquês. Posteriormente ele passa a ser vítima do antissemitismo da época gerado pelo caso Dreyfus.

Viktor Ephrussi ganha   os netsuquês como presente de casamento, mas apesar disso eles acabam ficando no quarto de vestir de sua mulher, Emmy, que não se importava muito com eles, ao contrário os interesses dela eram roupas e amantes. Após ela os netsuquês passam a ficar por um tempo com sua filha Elisabeth que assim como toda sua família demonstra grande apreço pela cultura, ela chegou inclusive a se corresponder com Rainer Maria Rilke, e foi uma das poucas mulheres da época ao ingressar em uma faculdade de direito.

É nesta parada em Viena que temos talvez uma ampliação, não intencional, do foco que o autor deu a história dos judeus na Europa central, e consequentemente no quanto este povo sofreu, sobretudo com o avanço das tropas nazistas em Viena, quando eles foram acusados de tudo aquilo que não estava dando certo na sociedade da época, não sendo raro, inclusive, que muitas pessoas acreditassem que os judeus estavam usurpando as pessoas que realmente eram de Viena.

O último dono dos netsuquês, antes de que eles cheguem as mãos de Edmund de Waal, foi Ignace, tetravô de Edmund e gay, ele passou a viver no Japão após a segunda guerra mundial. No mesmo lugar ele fundou sua empresa e arranjou um companheiro.

Como disse perfeitamente, o também escritor, Julian Barnes, em um dos elogios na capa do livro; “de maneira inesperada, combina a microarte das miniaturas com a macro história, em um efeito grandioso. ” Estas palavras são as mais exatas ao descrever a história desta coleção, em A lebre dos olhos de âmbar o que começa como uma coleção de pequenas esculturas, aos poucos por meio da narrativa de Edmund de Waal, vai ganhando sentidos mais amplos, a cada vez que são contextualizados, como em bonecas matrioskas,  surge um feito em cadeia, começando om uma coleção de esculturas,  que se transforma em um importante volume de memórias de uma das mais influentes e tradicionais famílias europeias,  passa por uma breve história da arte no século vinte,  e que  finaliza quando o leitor tem diante de si um grande panorama da história dos judeus na Europa, e consequentemente uma aula de história  sobre alguns dos mais importantes acontecimentos do século vinte.

Em meio a tantas informações fica a impressão ao leitor de que a prosa de De Waal, é cansativa e detalhista, e aí o leitor só estará parcialmente errado, é uma prosa extremante detalhista sim, mas nem um pouco cansativa, o autor consegue passar ao leitor um grande número de informações de forma interessante e com uma escrita extremamente elegante. Se por um lado fico feliz em saber que esta coleção permanece e que nela tantas histórias se entrelaçam, eu também fico triste por ter acabado a leitura deste livro, que li de forma voraz e posso garantir, é com toda certeza uma das minhas melhores leituras deste ano, e passou a fazer parte dos favoritos da minha vida.

Cavalos roubados – Per Petterson

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Romances de formação é um gênero que e procuro desviar, e evitar ao máximo, como opção de leitura. Em sua maioria são livros que não me atraem nem um pouco, portanto eu só decido ler se for escrito por um escritor muito renomado, ou se foi um livro que ganhou prêmios, como é o caso do livro Cavalos roubados.  Especificamente neste livro, eu acabei adquirindo ele por acreditar que seria um romance sobre a amizade, e eis que me enganei.

Aos 67 anos Trond Sander decidiu se mudar para uma região distante e remota   da Noruega, em busca da isolamento e paz, mas tudo muda quando inesperadamente ele se depara com seu vizinho Lars. Lars é irmão de Jon, que na adolescência foi o melhor amigo de Trond. Trond e Jon haviam se conhecido quando o pai de Trond e ele passavam alguns meses por ano em uma cidade que fazia fronteira da Noruega com a Suécia (a mesma cidade onde Trond passa a morar no fim da sua vida). Juntos Trond e Jon passavam suas tardes roubando cavalos, até que um acidente acaba interrompendo esta amizade.

O encontro com Lars serve como um gatilho que destravou a memória de Trond e o faz relembrar aquele que   é possivelmente o verão mais marcante da sua vida. Neste verão que ele passou junto com o seu pai, pelo qual alias ele nutre uma relação de grande amizade e admiração. E também com um outro cara, além de juntos com o pai e a mãe de Jon. Neste mesmo verão ele se auto descobre, e lembra de momentos de erotismo, crescimento mental e emocional, e outras situações que foram começando a molda-lo em quem ele se transformou.

À primeira vista Cavalos roubados é escrito para o público masculino, é só olhar de forma pouco aprofundada e poderemos constatar que ali tem vários temas masculino como a relação homem com natureza, ou homem com trabalho bruto, lembra em alguns momentos   os temas que permeiam as obras de Ernest Hemingway. Mas isso não quer dizer que não seja um livro que por isso não agradará mulheres. A propósito que fique claro, eu dizer que acho que os temas são masculinos não é dizer que eles são exclusivamente masculinos.

Uma coisa interessante na escrita de Cavalos roubados é que muitas coisas acabam ficando subtendido, ou seja, Per Petterson não sentiu uma necessidade de dizer aquilo que ele considerava obvio, tanto para ele como para quem estará lendo seu livro, e isso é uma forma interessante de vínculo com o leitor, é como se Petterson estivessem dizendo; eu não subestimarei a inteligência de vocês, e em troca eu não precisarei dizer aquilo que é obvio para nós dois.

Aquilo que mais me agradou foram as descrições da natureza e geografia de um país nórdico, que por sinal o autor consegue evocar com uma clareza e competência que se complementam de forma incrível com a capa do livro. Ao menos para mim estas partes foram as que mais gostei, já que sou muito interessado em países mais remotos.

Cavalos roubados é um livro muito bem escrito, com uma escrita contida e lucida, mas para mim o livro não foi tão atraente assim, não foi algo que me prendeu a leitura, por motivos extremamente pessoal, sem que com isso eu tenha intenção de questionar a qualidade   e competência da escrita de Per Petterson, ao contrário, acredito que com outra temática eu teria me dado muito melhor com este autor.