As avós – Doris Lessing

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Uma coisa que eu nunca tinha pensando até então era no quanto criamos, e mantemos, amizades para que elas sejam um tipo de confirmação das nossas crenças, valores e ideias. Com isso eu não quero dizer que buscamos em nossos amigos ou em quem nos relacionamos um clone nosso, ao contrário, a pessoa pode ser um completo oposto de nós mesmos, mas nos tornamos amigos por algum detalhe em comum, seja ele pequeno ou grande, consciente ou inconsciente. E da mesma forma que buscamos no outro um tipo de confirmação nossa, escolhemos nos autoenganar quando alguém que conhecemos ou nos relacionamos decide não nos dar esta confirmação. É só lembrar o seguinte: quantas pessoas você já deixou de conversar, ou se afastou, seja por um pequeno tempo ou por um tempo grande, por ela ter lhe dito algo que te contrariou ou que você buscava negar e mais para a frente aquilo que ela afirmava se mostrou correto?

No livro As avós, o leitor é apresentado a dupla de amigas Roz e Lil, ambas são amigas desde a infância e cresceram juntas na bacia de Baxter, uma pequena cidade cercada por rochas. Roz e Lil são vizinhas, ambas cresceram a se tornaram mulheres exuberantes, ao mesmo tempo ambas se casaram e tiveram seus filhos (Tom filho de Roz e Ian, filho de Lil), e posteriormente ficaram; Roz solteira e Lil viúva. Roz se tornou professora de teatro da escola da cidade, e Lil, que antes era uma grande atleta, acabou se tornando dona de uma pequena cadeia de loja de materiais esportivos. Juntas elas sempre tiveram uma amizade simbiótica e a relação acaba se estreitando mais ainda quando cada uma passa a se tornar amante do filho da outra.

O quarteto passa a viver um inusitado caso de amor, que ao mesmo tempo em que traz muito prazer a todos os envolvidos acaba por criar uma preocupação para Roz e Lil, já que ambas temem chamar a atenção do resto da população local para a situação que pode ser considerada no mínimo um tabu. Em especial pelo fato de como é que duas mulheres tão atraentes e exuberantes podem ainda estarem solteiras e sem nenhum pretendente. E logo elas acabam dando um jeito de se distanciarem de Tom e Ian, que acabam por conhecer e casar respectivamente com Mary e Hannah. Apesar de a grande paixão dos dois homens serem Roz e Lil.

Aquilo que de cara me chama atenção é que esta trama é vista por muitos como um enredo polêmico, mas na verdade o que existe de polêmico ali? Estamos falando de duas mulheres de meia idade que   sempre foram muito próximas uma da outra, e uma acaba se envolvendo com o filho da outra. Fora isso, o único fato polêmico é que tudo ali está em um microcosmo muito íntimo e fechado para estranhos.  E aqui eu me lembro de um momento em que Harold, o marido de Roz, acaba confrontando – a ; que o casamento dela sempre foi com Lil, e que na relação de ambas não tinham espaço para seus maridos. E aí voltamos par aquilo que eu disse no primeiro parágrafo desta resenha, Roz prefere se autoenganar de que vive neste microcosmo, fechado a estranhos, com Lil.

Outro detalhe muito interessante é a vida em dupla digamos assim, no livro, cada um dos personagens forma uma dupla com outro em seu modo de agir, Hannah e Mary criam uma aliança e se apoiam mutuamente quando decidem trabalhar fora, Roz e Lil quando decidem começar e depois dar um fim na história de amor, Tom e Ian quando decidem aceitar que não podem viver este caso eternamente, e Harold e Theo que mesmo amando suas mulheres percebem o quanto há de errado, ou só fora dos padrões.  E isso me fascina muito o quanto buscamos no outro um reflexo mesmo que minúsculo daquilo que desejamos ou acreditamos, e isso mostra como muitas vezes nossas convicções são fracas ou inseguras e necessitamos de um apoio, seja ele para realizar um sonho ou alguma coisa que não é muito normal de se fazer.

As avós é uma novela encantadora sobre os limites daquilo que é natural e daquilo que não é natural, é também um livro que te faz dar uma remexida na cadeira durante a leitura, e após ler você fica pensando em o quanto aquilo ali é algo moral ou amoral, para seus padrões, mas sobretudo é a história de um amor que desafia padrões ou regras. As 97 páginas do livro formam um livro delicioso, bem-humorado e completamente inusitado, criando assim, um livro encantador e delicioso.