Stoner – John Williams

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Chega a ser engraçado o fato de Stoner ser um livro cultuado por tanta gente, pois quando eu penso na trama do livro, a primeira palavra que me surge na mente para descrevê-lo: é comum. Não há nada ali que não possa acontecer na minha vida ou na vida de alguém próximo que eu conheço, e talvez seja isso a primeira coisa que me impressione quando fechei o livro após ter lido as suas 320 páginas. Afinal estou acostumado à arte, e na maioria das vezes lermos histórias pouco convencionais e criativas, mas cuja principal característica é me fazer pensar: “Não acontece isso tantas vezes na vida real. “

Aos dezenove anos William Stoner ingressa na faculdade, e isso é bastante incomum, para ele, por ele ser filho de camponeses que nunca estudaram. Ele começa a estudar literatura, após se formar ele arruma um emprego como professor na faculdade e ao mesmo tempo passa a seguir a carreira acadêmica. Ao longo dos anos Stoner se casa, passa a ser infeliz no casamento, tem uma filha, também tem um caso, e vai subindo lentamente alguns degraus mínimos da hierarquia na faculdade onde trabalha. Assim como qualquer pessoa normal a vida de Stoner também oscila entre alguns revezes e outros momentos de profunda felicidade e paz.

Talvez a característica que mais chama a atenção dos leitores de Stoner é o estoicismo e passividade do personagem, as suas atitudes muitas vezes me lembrou alguém que está sob uma forte chuva e ao invés de tentar seguir adiante se curva ao máximo para tentar evitar ser muito castigado, mas não reage, não com um mínimo de ímpeto ou força de vontade. O mais estranho para mim, é o quanto eu passei a gostar do personagem Stoner e torcer por ele, não que eu tenha algo contra, mas nunca fui do tipo que torcesse ou admirasse personagens passivos ou delicados, ao contrário sempre gostei muito mais de personagens fortes, pragmáticos e que não se curvam.

Uma das questões narrativas que me impressionou muito é que Stoner é um livro cuja narrativa começa com uma qualidade bem acima da média e simplesmente segue neste patamar sem sofrer oscilações em sua qualidade narrativa, se o livro não tem pontos altos que se destaquem em especial, tão pouco cai em momentos de chatice ou que se transforme em momentos cansativos ou desnecessários.  Esta observação não diz algo somente sobre mim, mas também sobre quem escreveu este livro, pois não é tão comum assim um livro ter tamanha uniformidade em sua escrita, sem que seja um livro mediano. Ao pensar sobre isso fica claro para mim, o quanto John Williams estava no pleno controle de cada linha daquilo que escrevia.

Para muitos leitores o grande trunfo de John Williams é de que ao retratar a vida absolutamente comum de Stoner, a história encanta as pessoas pela capacidade de se verem ali, ou não longe daquela vida que é de todo comum.  E isso é muito engraçado, pois para mim, o que eu gostei em Stoner não é a capacidade de espelho que a narrativa poderia exercer sobre minha vida, mas sim o fato de que Stoner lembra-me muito um vidro de janela no qual chegamos muito próximos para tentar ver através dele. E assim como acontece com o vidro, em Stoner há quem se perca contemplando seu próprio reflexo, ao invés de ver através deste vidro. Para mim a grande recompensa de ler Stoner está no fato de eu precisar abrir um livro e começar a olhar para ele, para só então conseguir ver através deste livro o fato de que, da vida mais comum pode- se surgir uma grande obra de arte. Para mim, ao escrever Stoner John Williams executando uma grande ode a vida comum.

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