O ruído das coisas ao cair – Juan Gabriel Vásquez

Eu costumo definir como um romance policial elegante, aquele livro que possui os mesmos traços básicos de um romance policial (um assassinato, um mistério e alguém que busca desvendar o mistério), porém não é tão recheado de ação, sangue ou violência quanto um livro policial “normal”. E é nesta classificação de romance policial elegante que eu inseri O ruído das coisas ao cair do escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez.

Basicamente a trama é a seguinte: no meio da década de noventa Antonio Yammara, um professor universitário, acaba conhecendo, no salão de bilhar que frequenta, o ex presidiário Ricardo Laverde, e ambos logo ficam amigos. Um dia, porém, Ricardo é assassinado, e Antonio que por acaso estava com ele acaba levando um tiro e fica em estado grave. Após se recuperar ele fica com um tipo de estresse pós-traumático, que acaba afetando a sua vida em família. Até que um certo dia ele decide voltar à casa onde Ricardo Laverde morou, para   tentar descobrir mais sobre seu misterioso amigo, e sobre o que realmente aconteceu quando ele foi morto.

Como pano de fundo temos a Colômbia a partir dos anos setenta dominada pelo narcotráfico e por Plabo Escobar, que apesar de não ser uma figura central, ou do qual o narrador   se debruça diretamente em algum momento, está lá. Afinal como não falar sobre os anos setenta e o narcotráfico na Colômbia sem mencionar um dos traficantes mais famosos da história, e que consequentemente se tornou uma espécie de ícone.  E é claro o narrador vai mencionar em vários momentos, como esses anos foram um período de insegurança, e que por isso mesmo acabou por criar uma geração que ou era cheia de medo, ou acabam buscando ir embora do seu país natal.

É com está geração ao fundo que Antonio, acabará descobrindo mais sobre a vida e a família de Ricardo Laverde, e sobretudo esclarecer quem realmente foi este homem e qual a sua história. Para isso Antonio terá que entender antes, parte da história do pai e também do avô de Ricardo. Porém não só Antonio, ou Ricardo, mas todos os personagens parecem estar de alguma forma profundamente distanciados do leitor.

Apesar de derrapar de forma perigosa em alguns clichês de livros policiais (o fato de que o homem que está investigando algo acabar indo para a cama com uma mulher que está ligada a vítima, que é um clichê enorme de livros policias), e de toda a trama, parecer ser recoberta com um tipo de verniz; elegante, mas também fria. A escrita de Juan Gabriel Vásquez consegue ser ao mesmo tempo: rica, elegante e segura, conseguindo assim, narrar sobre qualquer fato de forma precisa e fluida, sem cometer excessos.

Como um todo eu gostei muito do livro é um romance muito bem construído e narrado; capaz de manter minha atenção como leitor por várias páginas. O que é raro em livros descritivos. Ao mesmo tempo ajuda a lançar luzes sobre a Colômbia durante o auge do narcotráfico. Mas não somente isso, o livro é também uma ode às pessoas que passam por nossa vida e marca de forma inesquecível, para o bem ou para o mal.

Por último o livro me fez pensar em o quanto cada pessoa tende a ser fruto da sua geração, se ela não tomar cuidado. O que é um pouco frustrante saber que não importa o quanto você esteja engajado ou de acordo com seu tempo, mesmo sem que você possa escolher, de alguma forma resquícios dele vão se infiltrar pela sua vida e possivelmente influenciá-la em maior ou menor grau.

“Colômbia produz fugitivos, isso é verdade, mas um dia eu gostaria de saber quantos deles nasceram como eu e como Maya no início da década de setenta, quantos, como Maya e eu, tiveram a infância pacífica, protegida, ou pelo menos não perturbada, quantos atravessaram a adolescência e se tornaram temerosamente adultos, enquanto ao seu redor  a cidade mergulhada no medo, nos ruídos de tiros, nas bombas, sem que ninguém tivesse declarado guerra alguma, pelo menos não uma guerra convencional, se é que existe semelhante coisa. Gostaria, assim, de saber quantos saíram de minha cidade sentindo que se salvavam de uma ou de outra maneira(…)”