O pescoço da girafa – Judith Schalansky

O pescoço da girafa, da escritora alemã Judith Schalansky, era um livro que tinha tudo para ser interessante. Com uma bela capa, um título interessante e uma boa trama, tudo indicava que poderia render um belo livro, mas ao lê-lo pude perceber que é justamente o contrário: ele é um livro enfadonho e não cumpre quase nada do enorme potencial que parece ter.

Ao longo de 224 páginas somos apresentados a Inge Lohmark, uma professora de biologia que mora em uma cidade que pertencia à antiga Alemanha Oriental. O colégio Charles Darwin, onde Inge e seus amigos dão aulas, está preste a ser fechado. Ademais, as pessoas estão se mudando para outros lugares mais modernos, com maiores chances de emprego e qualidade de vida. Eis que, nesse contexto, surge para Inge a importante necessidade de se adaptar para que não fique para trás com o avanço do processo evolutivo.

Inge não é uma pessoa que poderia ser chamada de legal, uma vez que ela é sempre muito dura e crítica em relação aos seus alunos e colegas de trabalho e quase nunca demonstra sentimentos positivos em relação a eles. No geral, os únicos sentimentos que o leitor sabe que ela têm em relação aos seus colegas e alunos é o menosprezo. Na verdade, a capacidade de convívio e interação social de Inge com outros seres humanos é algo lamentável, pois simplesmente não existe: ela é fria, monótona e muito racional, tão racional que acaba sempre pendendo para o lado do pessimismo em relação a tudo que a cerca.

A partir da descrição anterior o leitor pode pensar: “Nossa, mas então ela vive completamente sozinha e sem contato humano algum?” E a resposta será: não. Ela é casada e tem uma filha crescida que se mudou para os Estados Unidos. Já o marido de Inge é quase inexistente na narrativa e ele somente é citado quando surge algum comentário sobre a criação de avestruzes que tem.

O pescoço da girafa só é realmente interessante na linguagem que apresenta, sendo válido ressaltar a forma como Judith Schalansky narra sobre Inge, que é uma professora de biologia, e insere no livro vários temas que são intrínsecos à área de estudo da protagonista, como reprodução, evolução, adaptação, maternidade, puberdade e extinção. Porém, todos esses temas são tratados de forma contextualizada no livro, ou seja, nada ali surge de forma gratuita. Pelo contrário: muitas vezes surgem como nuances, mas infelizmente isso não salva o livro de ser algo maçante, deixando claro que Judith Schalansky tem potencial para escrever algo melhor.

“Mais de noventa e nove por cento de todas as espécies que existiam na Terra naquela época foram extintas. Mas todos pensavam apenas naqueles grandes e ridículos animais de quarenta toneladas e cérebro do tamanho de uma bola de tênis, que não eram capazes de regular sua temperatura corporal. ”